domingo, 12 de agosto de 2012

APRESENTAÇÕES LITERÁRIAS - OFICINA BOCA DE LEÃO

O CONTEÚDOS E AS POSTAGENS DESTA PÁGINA, ELABORADOS PELA COORDENAÇÃO DA OFICINA BOCA DE LEÃO, SÃO MATERIAIS DE ESTUDO E PESQUISA DESTINADOS AOS INTEGRANTES BOCA DE LEÃO.

DIAS 16 E 17 DE ABRIL DE 2013

SEMANA DO LIVRO INFANTIL - MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS/SC

No dia 16, reuniram-se para uma Roda de Contação de Histórias, das 15 às 16h, no Setor Infantil da Biblioteca Pública de SC, as Escritoras e Contadoras de Histórias: Aparecida Facioli, Claudete da Mata, Dora Duarte e Saray Martins, as quais atenderam as espectativas do público infantil, composto por, aproximadamente, 60 crianças na faixa etária de 4 a 6 anos.

 

DIA 13 DE NOVEMBRO DE 2012

Comecei o dia, levantando bem cedo para pegar dois ônibus rumo à casa da Saray Martins. Ao chegar à Lagoa da Conceição, local das velhas rendeiras da Ilha da Magia, fui recebida por minha amiga Saray, que, no caminho rumo à Barra da Lagoa, uma trajetória que eu não fazia, aproximadamente, há vinte anos, me fez relembrar de detalhes que eu havia esquecido com o passar do tempo.
Ao ver as travessuras do progresso, nem acreditei. A famosa Lagoa da Conceição de hoje, já não é mais a mesma de minha meninice.
A Avenida das Rendeiras, por exemplo, era contemplada com as suas singelas casinhas à beira da praia, com as velhas rendeiras sentadas na frente de suas almofadas feitas com pano simples, o famoso chitão, todo enfeitado de flores coloridas, de cores chamativas, que encantavam todos que as vissem - as almofadas de rendar, com enchimentos de barba-de-velho, aquelas penduradas nos galhos e nas copas das grandes árvores, uma coisa rara de se ver hoje em dia; outras eram cheias de palha de milho, tudo bem firme, para que ao colocar os alfinetes no "pique", assim nomeado o quadrado de papelão com o desenho das rendas a serem feitas, e onde eram trançados os belos desenhos com os bilros.
É que antigamente, enquanto os maridos das rendeiras estavam no mar, cuidando das suas pescarias, essas mulheres da cultura ilhéu, ficavam a tecer as famosas rendas de bilros, até que eles voltassem do mar. Foi assim que as rendeiras tradicionais, iam repassando os seus conhecimentos manuais às gerações futuras.
Tudo passou, e hoje só restaram algumas casinhas da Avenida das Rendeiras, e a tradição de fazer renda de bilros, aos poucos está sendo esquecida pelas manezinhas da Ilha de Santa Catarina. E no embalo memorial, a rota da famosa Lagoa, hoje cheia de baladas e um amontoado de coisas da modernidade, até a Barra, me fez refletir sobre esta e outras tantas coisas que nem o velho tempo lembra mais.

Por ser um tanto apegada aos velhos costumes, nessa 2ª feira comecei a fazer "renda de bilros", com minha professora, uma velha rendeira do Ribeirão da Ilha, a D. Daura. É que minha manezinha interiorizada desde o meu nascimento, além de divulgar, também precisa aprender e dar continuidade a esta velha tradição. Assim, poderei repassar este conhecimento às minhas futuras netas.
Ao chegar à casa de Saray, tomei um café e comecei a preparar o cachorro quente, os pãezinhos e o refresco de abacaxi com hortelã e limão, para servir as crianças do nosso coração, as quais se deliciaram com estas gostosuras e os presentinhos recebidos de Saray, que parecia uma criança entre os pequeninos que a rodearam o tempo todo.
Estou me referindo aos Escritores Mirins da "Boca de Leão", ótimos leitores, os quais, ao serem acomodados na sala da casa da cicerone, recitaram esta poesia como forma de agradecimentos ao convite, aos presentinhos, às gostosuras e a companhia do lago encantado com seus peixes subindo à superfície para comer pedacinhos de pães jogados por eles, aos sapos dorminhocos, aos grilos e outros bichinhos que encantaram e deixaram marcas na infância de cada um deles.

A Língua de Nhem


Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem

Celília Meireles, nasceu em 07 de novembro de 1901,

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DIA 29 DE OUTUBRO

Dia de montagem da exposição de textos de autoria dos integrantes da "Boca de Leão", acompanhados de ilustrações em barro, inspiradas e confeccionadas por Claudete T. da Mata, coordenadora da "Oficina Boca de Leão".

Tema: "A Menina da Ilha da Magia", de Saray Martins em homenagem à Claudete T. da Mata, onde o Leão representa o enredo do começo ao fim.

 Esta Menina, uma réplica de minha filha, representa o nascimento da "Oficina Boca de Leão"



"A Pata Felícia", um conto cheio de verdades, elaborado por uma criança do século atual; bem diferente de outras crianças de sua idade. Ao seu lado, o Tema: "Animais em revolta", revelando o devastamento da natureza, feito por mãos humanas - elaboração de Andrea Dias, mãe e amiga de Luiza.


Tema: "A Ceia", elaborado por uma adolescente, a qual nos mostra um enredo cheio de mistérios, envolvendo desejos e crises de um jovem confuso pelas influências do meio.
 
 
Tema: "Dona Aedes e o Besouro Rola-Bosta", de dora Duarte, fala sobre dois vizinhos não muito atraentes entre si, porém, cheios de conflitos e sabedorias que regem o mundo dos insetos. Ao lado: "Confusão no Jardim", também, traz informações sobre a vida dos insetos em conflito com os vizinhos caninos e outros mais.
Tema: "O Grilo Cri Cri", mostra o nascimento de um pequeno Ser, e a felicidade que trás aos seus familiares. Um nascimento não muito diferente dos demais seres, uma família não muito diferente das demais famílias, uma chegada cheia de surpresas...
 
Mesa composta pelas ilustrações da "Fadinha Capricho", um Ser Encantado, que gostava de inventar coisas; "Quiquita, a porquinha que pensava", um animal de estimação que esperava sua dona vir da escola, deliciando-se com uma plantação de abóboras e tirando muitas sonecas sobre elas, e a "Menina da Ilha da Magia", conto elaborado em homenagem à coordenadora do "Grupo Boca de Leão", o qual relata um pouco da vida e da infância da menina que virou "Bruxa da Ilha".
"Feijão", fala sobre os cuidados que devemos ter com os animais, as suas traquinagens, ciúmes e namoros entre eles.
Dora Duarte apreciando a mesa do "Boi-de-Mão, no tempo em que não havia outros personagens fazendo parte dele.
Dora Duarte ajudando na montagem da exposição.
Tema: "O Pássaro Raro", falando sobre ciúme materno, classe social, encantamentos...
Tema: "Poré, uma Estrela rara"
Fala sobre um pequeno vagalume que, por muito que tentasse, não conseguia acender a sua luzinha.

 Esta peça faz parte do cenário "Na Ilha do Boi-de-Mamão", um conto de Claudete T. da Mata.
 Os demais temas terão as suas ilustrações confeccionadas, posteriormente, sendo colocados na próxima exposição que acontecerá em 2013.
  
Depois de concluir a  Exposição, partimos para a montagem do palco, onde novos escritores contadores de histórias, serão revelados.
Saray, como ainda tem pernas boas para subir, estave do meu lado na colocação dos panos. 
Enquanto Ela montava o cenário, Eu a fotografava. 
No que será que Saray está pensando? 
Saray fez questão de ficar comigo até o final da montagem.

 Afinal, alguem precisava registrar tudo.
Finalmente, tudo prontinho!
Saray, VOCÊ é uma das pessoas que guardo no lado esquerdo do peito, sob sete chaves, lá dentro do CORAÇÃO.
Afinal, não foi por acaso que nos aposentamos, né AMIGA?
A VOCÊ, um constelação de ESTRELAS...
De Claudete da Mata, a "Bruxa da Ilha à Bruxa SaraUna!"

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30 DE OUTUBRO DE 2012

PRIMEIRO DIA DE CONTOS DO GRUPO BOCA DE LEÃO

As primeiras apresentações da jornada de seis encontros de conversação, leituras e escritas, técnicas de contação de histórias, exercícios de memorizações, desenvolvidos na "Oficina Literária Boca de Leão", que levou, aproximadamente 220 pessoas  ao auditório da Biblioteca Pública de Santa Catarina, em Florianópolis, no dia 30 de outubro, das 09h às 21h. Conduzidas por Claudete da Mata, Viviane Regina dos Santos, Saray Martins e Dora Duarte, integrantes da Oficina, abriram a Roda de Contos; cada qual com os seus maravilhosos Contos de Animais, Encantamentos e de Infância. Elas levaram o público infantil aos delírios do imaginário.
Saray encantou as crianças com "Quiquita, a Porquinha que Pensava" e "A Fada Capricho", dois Contos de sua autoria.
Após Saray, foi a vez Viviane subir ao palco, com seus dois Contos: "Obrigada, já posso voar!" e "Tão somente um olhar!" O primeiro, de animais, deixou a plateia de olhos arregalado e de boca aberta; o segundo levou todos à uma reflexão estampada nos seus olhares e expressões.  
(Mais fotos serão inseridas)

 

período vespertino foi regado à Luz dos Contadores de Histórias e Escritores de 5 a 50 anos de idade, com as suas belíssimas apresentações.
Tivemos a pequena Luiza Abnara (nove anos), uma ótima escritora e contadora de histórias, abrindo a Roda de Contos  do período vespertino, das 14h às 16h. Ela foi conduzida ao palco pela Bruxa da Ilha (Claudete da Mata). Luiza toda faceira, com o figurino cheio de encantamento, confeccionado pela sua avó, mostrou ao público infantil, os Contos de sua autoria: "A Pata Felícia" e "A Libélula Encantada", os quais apontaram à plateia um mundo imaginário cheio de verdades.
(Mais fotos serão inseridas)
O Grupo Boca de Leão da Biblioteca Pública Municipal Professor Barreiros Filhos, na faixa etária de cinco e seis anos, entrou depois de Luiza, encenando a poesia de Cecília Meireles :
 "As Meninas"
Arabela
Abria a janela.
  
Carolina
erguia a cortina.
 
E Maria
olhava e sorria: 
"Bom dia!"

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina,
a mais sábia menina. 

E Maria
apenas sorria: 

"Bom dia! 

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
 
uma que se chamava Arabela, 

outra que se chamou Carolina.
 

Mas a nossa profunda saudade
 
é Maria, Maria, Maria,

que dizia com voz de amizade: 

"Bom dia!"
Em seguida, Andréa Cristina da Costa Dias, mãe da pequena Luiza, foi chamada ao palco para contar e encantar crianças e adultos, com os seus Contos "Animais em Revolta" e "Pedro, o Príncipe dos Cavalos".
(Mais fotos ainda serão inseridas)
Neste seguimento, entrou a Bruxa da Ilha.
Conto; "Velho João, o filho da bruxa"
Autoria de Claudete T. da Mata
Após o Conto acima, Saray entrou com uma convidada muito especial, a qual foi recebida pela Coordenadora do Evento.
Myriam Garcia Vianna se preparando para iniciar a História Desenhada, enquanto que Saray conversa com as crianças sobre a vinda de Miriam.
 Myriam levou ao palco o conto O lápis e o Rato”.
Miriam levando a Plateia à descoberta do final da narrativa, que encerrou o espetáculo do período vespertino.
 Antes do coquetel, uma foto com uma parte dos integrantes da "Oficina Boca de Leão", presentes nesta tarde de outubro de 2012.
Depois de cada apresentação, nada melhor que os comes e bebes para todos os presentes: Escritores e Plateia sendo recepcionados por Evandro Jair Duarte, de costas, nosso grande companheiro do "Boca de Leão".


No período noturno, Wagner Hörbe abriu a roda com uma dança de boas vindas, que encantou a palteia.
Em seguida, entrou Luciana Bianckini com o conto de sua autoria - "Feijão".

Na plateia, além de educandos da Educação  Infantil, professores e estudantes universitários, nos períodos anteriores, no Sarau noturno, havia amantes da leitura e escritores de Santa Catarina, prestigiando o Evento.
Foi uma ótima oportunidade para ousar no palco, contar e encantar, ouvir e se deliciar com os contos inéditos dos novos escritores e de escritores veteranos. Uma excelente opurtunidade de poder ouvir a voz de muitas memórias...
Memórias da casa onde nascemos,
Da mãe que nos amamentou e nos acalentou...
Do pai que nos abraçou,
Dos avós que nos contaram histórias...
Das pessoas que nos acolheram,
Das pessoas que amamos,
Dos livros que lemos,
Dos brinquedos com os quais aprendemos a brincar,
Das as pessoas que nos ensinaram a falar, a ler, a escrever, a sonhar... 
Da comunidade onde vivemos,
Da nossa primeira escola,
Do nosso primeiro mestre,
Do mundo que tanto nos ensinou...
Do Deus que nos protege
De tudo o que ansiamos e tememos.
Do que somos e de tudo o que desejamos...
(Postagem e elaborações de Claudete T. da Mata)
(Serão inseridas mais fotos do Sarau das 18h às 20h)

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CONTOS NARRADOS NA ORALIDADE, PELOS ESCRITORES DA OFICINA LITERÁRIA BOCA DE LEÃO

SUMÁRIO

1. Por que no céu há tantas estrelas?
2. Velho João, o filho da bruxa!
3. Quero-te só para mim
4. O rancho mal assombrado
5. A lagarta
6. As três filhas

INÍCIO: 24 DE JULHO DE 2012
1

 Por que no céu há tantas estrelas?


O índio Karajá amava a natureza e mais que tudo, os animais e os pássaros, com os quais sabia se entreter usando a linguagem deles. Certa manhã ao ver um bando de papagaios voar bem alto, o Karajá se deu conta de que o firmamento estava vazio.
















 __ Por que o céu é assim tão vazio? Perguntou o índio Karajá aos pássaros que estavam numa árvore próxima, mas eles fingiram não entender a pergunta, mesmo que aquela voz lhes fosse tão familiar. O índio Karajá, com voz forte quase lacinante, perguntou de novo:

 __ Por que o céu é assim tão vazio?

 A rapousa precipitou-se e disse, quase num tom de acusação:

 Foi o Urubú-Rei, rei das altura, que pegou as estrelas para enfeitar seu penacho e torná-lo ainda mais resplendente!

 Ao ouvir isso, o índio Karajá decidiu tirar a limpo a questão como o Urubú-Rei. Pegou suas armas e foi á procura do refúgio onde ele se aninhava. Ao vê-lo aproximar-se, disse-lhe logo o  Urubú-Rei:

 __ Você é quem vem desafiar-me? Você não conhece, pequeno homem, as forças de minhas garras e de meu bico, em poucos minutos posso abrir suas veias e deixá-lo em pedaços!
 O índio Karajá, que no fundo amava os animais, deixou cair as armas e avançou sobre o  Urubú-Rei. Houve uma luta longa e sanguenolenta, rolando pelo chando entre penas e gritos. Se o Urubú-Rei tinha forças, o índio Karajá tinha habilidades de se livrar dos cortes profundas das garras e das bicadas potentes. Foi uma longa luta, até que o índio Karajá conseguiu imobilizar o  Urubú-Rei, predendo-lhe as pernas e segurando bem forte o bico.

__ Se quizeres ter de volta a liberdade! Disse triunfante o  índio Karajá. Então devolva as luzes que escondes no penacho da cabeça e nas plumas do corpo!

O  Urubú-Rei, que detinha também o segredo da perene juventude, não quiz renunciar às luzes. De que valeria a pena ser eternamente jovem e feio? Cansado de esperar a resposta do  Urubú-Rei, o índio Karajá começou a arrancar as suas penas. E cada pena lançada ao alto, se transformava numa estrela lá no firmamento. E arrancando um chumaço bem grande, do penacho do Urubú-Rei, surgiu a Via láctea. E com  um chumaço que pelou o pescoço do  Urubú-Rei, o céu se cobriu de um brilho tênue e doce, era  Lua Cheia. E com um chamaço maior ainda, lançado ao alto, eis que se acendeu um tição de fogo lá no horizonte... Nascia o Sol. E diante desse grande esplendor, o índio Carajá disse de si para consigo:

 __ Bom seria se o Sol em respeito ao brilho tênue das Estrelas e a timidez da Lua, se escondesse um pouco.
  Acontece que o Sol ouviu esse sussurro do índio Karajá, e lhe atendeu o desejo. E com a chegada da noite o urubú-Rei aproveitou para fugir. agosra já não ostentava mais um penacho cintilante, nem um pescoço luzidiu. Sua cabeça parecia mais com uma casca de laranja cortada ao meio, e seu pescoço um ramo de galho seco. E enquanto corria mata a dentro, ia gritando em tom de deboche:

__ Você me levou as luzes, mas ainda guardo comigo o segredo da eterna juventude!

E enquando fugia ía sussurrando o segredo da eterna juventudo. Acontece que o índio Carajá não ouviu nada, mas as árvores e os pássaros ouviram tudo. É por isso que de tempo em tempo as plantas trocam suas folhas e as aves sua penas. E o índio Karajá ainda continua sendo lembrados pelas tribos, quando elas se reúnem nas noites escuras em volta do fogo, onde os mais novos ouvem os mais velhos contarem a história do Céu e da Terra, do Sol e da Lua, das Estrelas e do Firmamento.
  
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Uma releitura feita por Claudete T. da Mata, sobre uma de muitas narrativas índigenas brasileiras, extraída do livro "O casamento entre o Céu e a Terra" p. 15, "Por que no céu há tantas estrelas?" Contos dos povos índigenas brasileiros, uma autoria de Leonardo Boff. Como tantas outras, esta relata o aparecimento das Estrelas e de todo o Firmamento. Esta, como tantas outras, é uma mitologias que percorre o Brasil como todas as mitologias do mundo todo que contam histórias, as quais podem sercompreendidad como o casamento do céu e da terra, simbolicamente partindo de uma interpretação aberta sobre a sua aproximação entre o seres humanas e a divindade, uma comunhão entre a sabedoria ancestral e a coloquial; tudo pela incansável busca pelo caminho idealizado pelos seres humanos.

Leonardo Boff, teólogo expoente da "Teologia da Libertação e defensor dos Direitos Humanos", escritor e professor universitário, nas suas narrativas sobre os povos índígenas brasileiros, nos faz um convite á celebração do "Casamento entre o Céu e a Terra", nas suas diferentes formas, como:

"Revisitemos a sabedoria indígena e sonhemos, por um momento, os mesmos sonhos que eles sonharam. Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade." (Citação feita por Rsane Pamplona, www.salamandra.com.br)

Nesta obra, quando iapuna se encanta pela Lua, a paixão toma conta de âmbos e dessa união nasce a tão conhecida planta "vitóriarégia"; quando os Karajás ultrapassam os limites da imortalidade para os planos terrestres, onde o deus dos Kamayurá, "Mavutsinim" se casa com uma mulher feita de de pedra e do tronco das árvores, surge a humanidade. Assim, mergulhados nessas leituras, ficamos encantados ao saber como o povo Tupi Guarani nos mostra o canto triste do "uiapurú" no consolo de sua amada, e ainda, como os índios do Xingu consegue ouvir o choro de lamento da índia "Ponaiam" que ao arrepender-se da dura prova que exigiu  de seu amor, até mesmo após a morte do amado. Certamente, este contos acompanhados de uma narrativa poética, precisa e variada, enriquecem e ampliam o vocabulário do leitor, tornando suas experiências mais ricas e precisas; nada que impeçam a concervação de seu frescor, com certa dose de ingenuidade motivada por elementos transcendentais e crivados de episódios que aguçam a curiosidade pela sua originalidade.  
(24/07/12)

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2

Velho João, o filho da bruxa!

Há muitos anos atrás, lá pras bandas do Sertão do Ribeirão da Ilha de Santa Catarina, antiga Nossa Senhora do Desterro, um pescador de dentro de sua canoa, em alto mar, ouviu um choro de criança recém-nascida que vinha  de trás de um milharal, em terra firme. O lugar que ficava atrás de uma casa, dava de frente para o mar.

Lá em alto mar, o pescador que era o mais velho entre outros que o acompanhavam, chamou a atenção dos amigos.

- Vancês tão oivindo o queu tô?

Um pescador retrucou enquanto outros riam:

- Tô não cumpadi... O cumpadi que me dixcurpe, maix deve sê cousa da tua baça, visse?

O pescador que tinha o costume de perder as estribeiras ao ser provocado, levantou de onde estava e falou:

- Poix intão acabou a pexcaria, vamo todo mundo de vorta pra bera da praia e vamo vê se isso é cousa da minha cabeça, visse cumpadi!!! 


Como era muito conhecido pelos seus rompantes que eram de deixar qualquer um sem saída, ninguém quis contrariá-lo e voltaram para ver que choro era aquele que só um dos compadres estava a ouvir.
 
Ao aproximarem-se do local, seguindo o choro de criança, que ficava cava vez mais próximo, para surpresa de todos, o pescador mais velho e muito irritado, o Zé Tião, encontrou uma criança recém-nascida sobre as palhas de uma plantação de milho que havia de frente ao mar.
 
A criança estava enrolada numa coberta de pluma de pato. Era um menino de seus olhos grandes e cheios de lágrimas que banhavam o seu rostinho miúdo. Ele olhou os pescadores um por um e mostrou um discreto sorriso, feito um ser encantado.
 
Para a admiração de todos, os pescadores mais novo do bando pegou o menino e o abraçou fortemente como se já o conhecesse há muito tempo. Foi então que o bando de pescadores fez um grande saragaço.

E, com todos falando ao mesmo tempo, ninguém percebeu que o menino calou e dormiu tranquilo no colo quentinho do Zezé.

Depois do saragaço veio a calmaria que organizou as ideias dos pescadores, que mais calmos, foram à procura de uma solução. Alguém precisava ver se era menino ou menina. Foi então que o seu Vivinho, o mais velho de todos, teve a ideia de levar a criança para alguma mulher da redondeza.

Além de precisar saber se a criança era menino ou menina, eles também pensaram ao mesmo tempo que o recém-nascido deveria ser benzido. Logo veio à cabeça do Zezé, a Dona Sissa, que uma benzedeira de mão cheia.

- Gente, acho que além de ver se essa criança é isso ou aquilo, se ela tivé embruxada vai tê que sê benzida. Intão vamos logo pra casa da sinhá Sissa, vamo?

Dona Sissa pegou a criança e viu que era um menino e o olhou da cabeça aos pés, sem nada encontrar. Depois fez sobre ele uma reza de proteção, que era assim:

"São Pedro, salva-me bem que me vou.

Jesus Cristo foi Batizado.

Na arca de Noé me meto.

Com as chaves de São Pedro me fecho,

Para que nenhum mal te aconteça.

E tudo quanto perder, apareça.

A Jesus me entrego,

E a Jesus um credo rezo.

Amém!”


Depois desse benzimento, Dona Sissa colocou um amuleto de proteção no pescoço do menino, para que ele ficasse protegido de todos os males do corpo e da alma. Mas alguém precisava adotar o menino... E quem faria isso? O Zezé que, ao recusar a ideia, ouviu da Dona Sissa:

- Mô fio, agora toma qui ele é teu...

O menino, que parecia entender o que a benzedeira falou, se agarrou no braço esquerdo do Zezé parecendo querer ficar com ele. Por sua vez, ao olhar nos olhos do menino, Zezé soltou uma frase que surpreendeu os amigos.

- Ele vai se chama João!

Assim, o tempo passou e Velho João, aquele que nasceu menino lá pras bandas da praia do Ribeirão, acordou de madrugada com um barulhão daqueles, vindo de sua cozinha. E, pé por pé, Velho João saiu de seu quarto, desceu a escada, e assustado com o que seus olhos viram, se agachou e congelou bem no meio da escada.

Agachado e agarrado ao corrimão da escada, Velho João viu um bando de bruxas no maior saragaço. Elas tagarelavam suas tramas bruxólicas, que de tão alto, dava de se ouvir lá do outro lado dos confins do mundo. Nesse momento, a bruxa mais velha do bando falou alto. E para chamar a atenção da bruxarada, gritou:


- Meninas... Tô sentindo cheiro de homem! Vassoura, vassoura matreira... saia já daí e veja quem é!

Nesse instante, a vassoura que estava encostada atrás do fogão à lenha, espionando tudo, saiu correndo e se meteu entre as pernas do Velho João. Ela subiu bem alto... e dando uma rodopiada pela cozinha, saiu janela a fora.

E lá se foi a vassoura levando o Velho João, aquele que um dia apareceu menino lá pras bandas do Ribeirão. A vassoura voou por todo  o Ribeirão da Ilha de Santa Catarina, com o Velho todo desengonçado. Os dois foram até o Centro da antiga Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, e lá das alturas sobre a velha figueira da Praça XV, Velho João viu um bando de crianças em círculo, onde alguns palhaços se apresentavam com suas palhaçadas a fazer as suas estripulias, cantando e dançando.

Lá das alturas, Velho João, ainda tonto, caiu bem no meio dos palhaços com suas travessuras. Foi então, que a plateia riu mais ainda ao pensar que aquilo fizesse parte da palhaçada.

Velho João, que de bobo não tinha nada, saiu dançando feito criança, entre o riso da gurizada. Envolvido nesse mágico momento, ele até esqueceu das dores no joelho e nas suas costas arcadas.

Depois de muito pular, cantar e dançar, Velho João sentiu uma saudade louca de seu travesseiro, o seu maior companheiro. Enquanto isso, lá do outro lado da velha figueira, escondida atrás do tronco de uma seringueira, a vassoura matreira, ao ver a alegria estampada no semblante da gurizada, beliscou um fiapo de palha e matutou:

- Ah... Velho João, Velho João, chega de brincadeira. Nunca vi dentro de uma só pessoa tanta felicidade! Meu menino, é hora de parar com essa brincadeira. É por isso que...

E Mal a vassoura acabou de matutar, saiu em disparada e se meteu entre as pernas do Velho João, voando de volta lá para a praia do Ribeirão.

De repente, Velho João se viu embaixo do colchão, com seu pijama listrado e todo amarrotado. Assustado e agarrado ao velho travesseiro, o seu maior companheiro, sussurrou para consigo:

- Velho João, velho João o que que é isso homem? Já sei, continuou ele - devo tá sonhando demais. E coçando a velha careca, Velho João sentiu um arrepio. Nesse momento arrepiante, ele segurou o amuleto e o apertou bem forte ao peito.

- Jesus, Maria, José... Protejam-me!


Foi então que nesse exato instante, a janela do quarto se abriu deixando entrar pelo quarto adentro uma ventania com cheiro de maresia. Além do vento algo puxou a barra do pijama de Velho João, que imediatamente, num só pulo, enfiou-se embaixo do colchão e lá de fora, dizem que ele pode ouvir em tom alto, alguém lhe falando:

Velho João, Velho João... Agora ouve tua mãe, aquela te deixou nascer lá no meio do milharal da praia do Ribeirão, e durma em paz mô fio qui eu também te protejo!!! Ahahahaha...

Autoria de Claudete Terezinha da Mata. Conto cênico, elaborado em 2007 e narrado quase sempre em todos as apresentações, sendo est a mais recente - abertura da "Oficina Literária Boca de Leão" para mostrar ao seu público iniciante como um escritor necessita proceder numa narrativa cênica ao fazer uso da literatura oral com o auxílio dos elementos de cena, como: Máscaras, roupas e outros instrumentos, bem como, a utilização de planos físicos, tipo e impostação de voz, expressões corporais, delimitação de pausas numa contação de histórias, cuidados com o vocabulário, controle da respiração e mudança da voz na representação dos personagem. Este conto pode ser encaixado em diversas categorias e gêneros - um deles pode ser conto de assombração(24/07/12)

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A benzedura feita nesta criação é considerada um Responso que faz parte das orações populares rezadas aos santos para que nenhum mal nos aconteça e também para que possamos encontrar coisas extraviadas ou perdidas.
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07 DE AGOSTO DE 2012

3

Quero-te só para mim

Sem nenhum pudor mostras teu corpo
para quem quer que passe.

Não te escondes,
pelo contrário,
mostras-te como vieste ao mundo
e todo mundo que te olha
pensa em comer-te
não apenas com os olhos...
Os homens tocam teu corpo...
Indiferente, não demonstras sentimento algum
e nada falas.

Como muitos,
eu te quero só para mim.

Sorte a minha
depois de tantas tentativas,
levo-te para casa,
preparo a mesa, sirvo o jantar,
tu és somente minha,
grelhada ao molho de alcaparras,
gostosa tainha.
Autoria de Augusto Abreu, apresentado pelo mesmo, para uma demonstração de recital poético, cuja intenção é saborear uma deliciosa taínha assada. Esta foi mais uma troca de experiências da Oficina Literária Boca de Leão, aos que acabam de ingressar no universo literário.

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 4

O RANCHO MAL ASSOMBRADO
Dois compadres caipiras, vinham da roça com enxadas nas costas, de onde foram cuidar da plantação. De repente, de tardezinha pela estrada, o tempo vira e as nuvens escurecem prometendo uma tempestade medonha. Logo começa a relampejar, a trovejar e os primeiros pingos de chuva caem.
Um deles era muito medroso, o outro mais corajoso. O medroso atraca nas calças do outro, mais precisamente na cintura, e fala covardemente, se tremendo todo quase borrando as calças:
─ Cumpadre, estou morrendo de medo desta tempestade, e se cai um raio, o que será de nós!?
O caipira corajoso, responde otimista:
─ Ô cumpadre, não se aperre que vamos achar um lugar pra gente se amparar da chuva!
Olhando nervoso, bem nos olhos do compadre, o caipira medroso arregalou os olhos e perguntou assustado:
 ─  Mais cumpadre, onde?
 ─  Olha lá aquele rancho, tá vendo compadre, vamos nos abrigar lá!?
Tremendo que nem vara de cipó verde, o caipira medroso falou mais assustado ainda:
   Mas compadre, ouvi dizer que esse lugar é mal assombrado!
 ─ Que nada, isso não existe! É tudo fruto da imaginação do povo.
E lá se fôramos dois.. .O compadre corajoso, arrastando o compadre medroso que de vez em quando recuava. Mas o medo era tanto, que o medroso não largava o corajoso, já encharcado de água da chuva.
Ao chegarem ao rancho, numa tremenda escuridão, mal dava para enxergar direito, a não ser quando o céu relampejava, clareando tudo pela fresta das telhas quebradas. O vento forte que batia na janela e na porta, parecia que ia arrancá-las do lugar. Dentro do rancho, os dois caipiras foram para a cozinha, o lugar mais seco e sem goteiras.
O compadre caipira medroso, tremendo mais que vara verde, não se sabe se era de frio, ou se era de medo, resmungando temeroso, falou:
 ─ Tô com medo cumpadre, desse escuro medonho!
 ─ Se acalma home, que vô ajuntar uns graveto pra fazê uma fogueira pra esquentar nóis dois. Tenho fósfo e vô acendê o fogo. Disse o corajoso, juntando os gravetos.
A caixa de fósforos, com os últimos três palitos, estava tão molhada que foi preciso aquecer palito por palito, como também o lado da caixa onde se risca os palitos. Foi assim, que o primeiro depois de muito ser esfregado, foi riscado e falhou. Então foi a vez dos segundo e do terceiro.
 ─ Ai cumpadre! E se os outro também faiá?
 ─ Carma cumpadre! Carma!
Para o desespero do caipira medroso, o segundo palito, também falhou. Finalmente, veio o terceiro palito, quando os dois compadres prenderam a respiração e começaram a esfregar, a esfregar, até ele ficar aquecido.
- Riscou, riscou!!! Acendeu!!! Gritaram os dois, se benzeram aliviados. O corajoso acendeu os gravetos que foi logo pegando fogo, e suas chamas aumentando. Mas quando de repente, em volta da fogueira, os dois caipiras começaram a se aquecer, um barulho de porta se abrindo e um ranger de dobradiças enferrujadas, ecoou simultaneamente. Foi então que o compadre medroso atracou-se no compadre corajoso, com os olhos cerrados, falou aos gritos, numa só comoção:
 ─ Ai, ai, ai meu Deus, acho que é uma alma penada! Ai cumpadre, o que é isso!? O compadre, agoniado, foi falando mais alto ainda:
 ─Larga de ser medroso, home de Deus! Ô cara cagão, num tá vendo que é só uma forte ventania, que deve ter aberto a porta?
Nisso, ouviu-se umas pisadas bem leves, “aquilo” se aproximando em direção à cozinha, mais precisamente, em direção à fogueira, quando o cumpadre corajoso, que estava de costa, virou-se e exclamou:
 ─ Ah, cumpadre, é só um frango! Tadinho, tá todo molhado, querendo se aquecer também na fogueira.
 ─ Ai que susto, cumpadre! Ainda bem que é só um frango, né? Falou o medroso aliviado, trazendo o galo para perto do fogo.
Porém, quando os dois começaram a esfregar as mãos nas labaredas da fogueira, mais aliviados, para o espanto dos dois, ouviu-se uma voz bem próxima da fogueira, sussurando tranquilamente.
─ Ufa! Tá tão quentinho aqui, né cumpadre!?
Nesse momento, os dois caipiras olharam o frango, e de olhos esbugalhados, se olharam pálidos que nem vela de defunto, pensando a mesma coisa.
Releitura de Dora Duarte, de um autor desconhecido, para mostrar ao público um Conto de Assombração.

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5

A LAGARTA

 Vou contar a vocês, a história de uma lagarta. Um bichinho que anda por aí.

Com suas muitas e muitas perninhas, ela anda pelas árvores, pelas folhas das plantas no jardim...

A lagarta de nossa história passava o tempo todo roendo e comendo folhas. Assim ela dividia seu espaço palmo a palmo, com suas amiguinhas, no delicioso verde das folhas.

Porém, certo dia, a lagarta sentiu que precisava ficar sozinha. Então, retirou-se do meio das amigas e foi se arrastando para um galho bem isolado. Pendurou-se numa de suas folhas, bem juntinha ao galho, e construiu um casulo bem quentinho e dormiu profundamente. E dormindo lá dentro do casulo, a nossa lagartinha sonhava cada sonho... É lagartas também sonham.

Para quem não sabe, casulos são casas de lagartas e outros bichinhos que precisam dele para dormir tranquilos. Dormindo no seu casulo quentinho, a lagarta sonhava que estava num mundo fantástico. Era um mundo bem diferente.

Nesse mundo, a lagarta estava dentro de uma nave espacial, cheia de luzes cintilantes, que piscavam soltando sons que voavam com o vento. Seu motor roncava... Suas luzes piscavam... e ela voava por todos os lugares que desejava.

- Mas que estranho, como pode uma lagarta voar? Pensou nossa lagartinha, no seu sonho.

Assim, ela passou ainda alguns dias, dentro do casulo dormindo e sonhando. Até que aos poucos, sua casa (o casulo) começou a se abrir, abrir, abrir... e aos poucos ela foi acordando. E vendo ainda tudo escuro, bem devagar, a nossa lagartinha foi saindo do casulo. Ela sentiu um frio na barriga, se contorceu esfregando os olhos.

 - O que está acontecendo?

Era o mundo lá fora a lhe chamar. Um mundo cheio de luzes... Mas a lagarta não estava entendo nada daquilo. Ela estava, era com muito medo, achando que o mundo estava sumindo de seus pés. Mas aos poucos, bem devagar, com num passo de dança, ela conseguiu soltar-se do casulo.

De repente, abriram-se duas asas e a lagarta começou a flutuar até as alturas. Suas amiguinhas não estavam mais ao seu lado. E o que havia mesmo, era muitos outros que iguais a ela, também voavam.

Foi assim que a pequena lagarta percebeu: aquilo que toda lagarta chama de fim de mundo, o mundo todo chama de Borboleta!
Releitura de Saray Martins, de um autor desconhecido, para mostrar ao público, um Conto de Animais.

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21 AGOSTO DE 2012

6

AS TRÊS FILHAS

Num lugarejo pra lá dos confins do mundo, havia uma família muito estranha. O casal, aparentemente normal, tinha três filhas: Um Olhinho, Dois Olhinhos e Três Olhinhos.





A filha mais velha tinha somente um olho bem acima do nariz. Por isso todos a chamavam de Um Olhinho. Ela era a cara da mãe, da cabeça aos pés. A filha do meio tinha dois olhos, como o pai. E semelhante a ele, ela era uma pessoa muito especial. Porém, não tão amada pela mãe, como suas irmãs que eram os xodós da casa, Dois Olhinhos, assim batizada, fazia todos os serviços da casa, uma exigência da mãe. Já a filha mais nova do casal, tinha três olhos. E era a mais mimada das três, mas muito preguiçosa, assim como sua irmã mais velha. Dizem que nem todos os seus olhos dormiam ao mesmo tempo. Um sempre ficava acordados para vigiar a casa.



Dois Olhinhos, forçada a fazer todas as tarefas domésticas, era muito magrinha, de tanto trabalhar de Sol a Sol. A mãe não a deixava descansar nem um minuto. Por isso quando ao chegar a noite, Dois Olhinhos atirava-se, adormecendo num piscar de olhos. E acordava com o primeiro cantar do galo, quando corria até a cozinha para preparar um generoso café para sua mãe e as duas irmãs preguiçosas.
Sem tempo para fazer suas refeições, Dois Olhinhos fazia as tarefas determinadas pela mãe, que, além disso, ainda a obrigava a levar uma cabrinha para pastar numa colina bem longe da casa. E lá do alto da colina, Dois Olhinhos, como não tinha ninguém para conversar, ela falava com a cabrinha como se fosse uma pessoa.
Certo dia, com a barriga roncando de fome, Dois Olhinhos nem percebeu a presença de uma senhora muito estranha. Era uma anciã da idade da Terra. Seus cabelos, também da cor da Terra, eram tão compridos, mas tão compridos que cobriram todo aquele lugarejo, no findar daquele dia. Seu rosto mostrava todas as linhas do tempo, e seus olhos, olhavam tudo ao mesmo tempo... Seus ouvidos eram tão finos, que ouviam todos os sons, independente da distancia de onde eles viessem.
E vendo o tamanho sofrimento da menina franzina, aquela anciã da idade da Terra a chamou:
- Menina, pequena menina, venha cá!
Dois Olhinhos, esfregando a barriga, deu uma olhada a sua volta, mas não viu nada. E de olhos bem aberto, um tanto assustada, sentiu que algo puxava sua saia. Foi então que ao olhar para baixo, ela viu a anciã, aquela da idade da Terra, a olhar firme em seus olhos.
- Não se assuste minha pequena. Saiba que tudo vejo e tudo ouço. Por isso, estou aqui para te dar um presente. Você quer?
Dois Olhinhos, um tanto acanhada, respondeu num sussurro:
- Se mereço, eu aceito! Mas o que é?
- Minha pequena, você está vendo aquela cabrinha?
- Sim senhora!
- Então preste atenção, toda vez que você estiver sozinha e sentir fome, olhe bem firme nos dois olhinhos da cabrinha, e diga: “Cabrinha, cabrinha, põe a mesinha!”
Assim que a anciã, da idade da Terra, concluiu essa rima, num piscar de olhos surgiu uma mesa cheia de guloseimas: tortinhas doces e salgadas de todos os sabores, formas e cores; frutas fresquinhas, todas do gosto da menina. E muito mais!
Convidada a se servir de todas as gostosuras daquela mesa, Dois Olhinhos comeu até não querer mais. E a anciã, que tudo via e ouvia, ao colocar seu ouvido sobre a Terra, ouviu passos de alguém se aproximando. Nesse instante, ela tocou carinhosamente no ombre esquerdo de Dois Olhinhos, e falou:
- Agora você já está de barriga cheia. É hora de parar, mas para isso você precisa dizer: Cabrinha, cabrinha, guarda a mesinha! E num piscar de olhos, a mesinha sumiu. Em seguida a anciã, segurou as mãos de Dois Olhinhos, e a alertou.
- Minha menina, jamais fale a ninguém sobre o presente que lhe dei. Assim você nunca mais voltará a sentir fome. E olhe, daqui por diante, você irá ficar mais bela ainda. E cada vez mais forte. Agora, me faça um grande favor – ajude-me a subir a colina, dando um leve empurrãozinho em mim, bem assim!
A anciã colocou as mãos de Dois Olhinhos em suas costas, quando ela a empurrou colina acima. Nesse momento, como um vento, aquela anciã da idade da Terra, saiu saltitando até desaparecer.
Dois Olhinhos, por alguns segundo parada, não viu a mãe se aproximar aos gritos:
- Menina, o que você está pensando? Por acaso não viu o dia passar? Estamos morrendo de fome, e a culpa é toda sua. Ande, pegue esta cabra e vá correndo para casa. E olhe bem menina, quando eu chegar, quero a mesa posta!
Dois Olhinhos olhou na direção do topo da colina, como numa despedida, desceu correndo para casa. E quando chegou, vendo que suas irmãs estavam no quarto, pegou a cabrinha e falou:
- Cabrinha, cabrinha, põe a mesinha!
Sossegada, Dois Olhinhos chamou as irmãs e a mãe, que chegou toda esbaforida, para o jantar. As três, de boca aberta e olhos arregalados, avançaram em tudo o que puderam, comendo sem parar. Não sobrou nada do banquete. Nem uma migalha de pão para Dois Olhinhos, que já estava de barriga abastecida. E a cabrinha só teve que guardar a mesinha.
Depois de tanto comer, Um Olhinho, Três Olhinhos e a mãe foram dormir de roupa e tudo. Elas nem perceberam o tamanho da mesa em que comeram.
Os dias se passaram, quando numa tarde bem fria, a mãe desconfiada, sussurrou para as filhas mimadas:
- Meninas, vocês perceberam o mesmo que eu?
- O mesmo, o que mamãe? Você não está falando coisa com coisa.
Irritada com a falta de atenção das filhas mimadas, a mãe retrucou:
- Suas estúpidas, vocês ainda não viram o que eu tenho visto a dias? Vejam com dois olhinhos engordou. Ela está ficando a cada dia, mais bonita do que vocês duas juntas. Que, aliás, vamos e convenhamos vocês andam tão relaxadas, que até os pés de vocês estão parecendo quatro pranchas, de tão grandes que são. Isso sem falar nesses seus cabelos embaraçados e secos que nem palha de madeira.
Três olhinhos, um tanto desajeitada, falou irritada:
- Mamãe, mamãe, por que tanta estupidez com a gente? Francamente, estou desconhecendo você.
A mãe, encafifada, falou de si para consigo:
- O melhor que tenho a fazer, é ver de perto, o que Dois Olhinhos anda fazendo. Pois não vejo essa menina comer nada, faz tempo! O jeito é ficar de olho nela.
Foi dito e feito. A mãe de Dois Olhinhos ficou grudada nela um dia inteiro. Até que ao subir a colina, viu de bem longe, a filha falar com a cabra e a mesa surgir num piscar de olhos. E ela que não era nada boba, foi para casa com a cabeça cheia de ideias, porém, decidida a por um fim naquele banquete.
Ao chegar em casa, com a barriga farta, Dois Olhinho se deparou com a mãe que a olhava firmemente, logo lhe ordenando:
- Menina, quero para o jantar, cabra assada, cozida, ensopada. De tudo quanto é jeito! Depois pegue as tripas da danada e coma do jeito que você desejar!
- Mas mamãe... Se matarmos a cabrinha, não teremos mais leite para tomar!
A mãe, sentindo-se trapaceada, gritou alto:
- Ande logo, que já acendi o fogo e coloquei uma chaleira de água a ferver pra sapecar a cabra. Ande, ande!
Vendo que Dois Olhinhos não iria matar o animal de estimação, a mãe pegou uma faca e passou no pescoço da cabra, que caiu morta.
Dois Olhinhos, com o rosto lavado de lágrimas, pegou e sapecou a cabra, preparando-a para o jantar. Nessa noite teve carne de cabra até não acabar mais. Mas como as três eram muito gulosas, comeram tudo. E diante das vísceras da cabra, a menina chorou muito. Tanto que não percebeu a presença da anciã, aquela da idade da Terra, que volta só para lhe dizer que enterrasse os restos da cabra, numa cova de frente a porta de entra. E assim foi feito.
Pela manhã, ao levantar com o cantar do galo, Dois Olhinhos, ao abrir a porta da sala, viu bem a sua frente, um pé de maçã carregado de frutas. Eram maçãs diferente, do tipo que bailava no ar e brilhava sem parar.
A mãe e as  duas irmãs, ao ouvir o grito de surpresa de Dois Olhinhos, levantaram e admiraram o misterioso pé de maçã. E sem querer saber de onde ele veio, imediatamente, as três num só coro, falaram:
- Oba! Hoje teremos torta de maçã, ouviu Dois Olhinhos?
Nesse momento, ao perceberem um príncipe vindo na direção do pé de maçã, a mãe empurrou Dois Olhinhos para debaixo de um barril ao lado do pé de maçã. E o príncipe, aproximando-se das três, falou:
- Essa noite eu tive um sonho. E nele me apareceu uma anciã da idade da Terra, a qual profetizou para que todo o meu reino ouvisse:
- Meu filho, hoje você irá encontrar a mulher com quem você se casará. Para que ela apareça, hoje você terá que sair em busca de uma macieira, a qual só a mulher com quem você se casará, conseguirá te dar uma maçã.
Nesse exato momento, a mãe de Dois Olhinho obrigou Um Olhinho e Três Olhinhos a pegarem uma maçã para o príncipe. E com as maçãs fugindo de suas mãos, elas não conseguiram nada.
Vendo uma barra de saia embaixo do velho barril, o príncipe quis saber quem estava lá embaixo. Mas as três enrolaram o que puderam, até que o príncipe decidiu, ele mesmo, levantar o barril para ver de quem era àquela barra de saia.
E para surpresa das três trapaceiras, Dois Olhinhos foi descoberta toda suja de carvão. Mas mesmo assim, o príncipe, ao receber de suas mãos a maçã encantada, foi levada para o castelo de seu amado. Tomou um belo banho e foi vestida pelas criadas. O casamento foi festejado em todo o reino, por uma semana inteira.
Dizem que a mãe virou cozinheira do castelo. As duas irmãs, para aprender algo de útil, viraram arrumadeiras e passadeiras.  Dois Olhinhos e o príncipe tiveram muitos filhos e filhas que se espalharam pelos quatros cantos da Terra. E a anciã, aquela da idade da Terra, deve estar em qualquer lugar, vendo e ouvindo de tudo, sem parar.
Releitura de autoria de Claudete T. da Mata, do conto "Um Olhinho, Dois Olhinhos, Três Olhinhos", Conto de Encantamento dos Irmãos Grimm: Jacob e Wlhelm.

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04 DE SETEMBRO DE 2012

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ENSAIO DE PREPARAÇÃO PARA O 1º SARAU



Nosso encontro teve início com o alongamento de braços, cabeça e pescoço; descontração corporal, dos dedos dos pés até a testa, e técnica de memoriazação com a manipulação de elementos virtuais, antes do início das narrativas na oralidade. Todos tiveram 10min para a execução da técnica de memorização, tendo ao final que guardarem seus elementos no mesmo lugar de onde eles foram pegos, sem escolha.
Após 15min de preparação corporal e cognitiva-criativa, os integrantes do "Boca de Leão" apresentaram suas produções literárias: Contos de Animais, na oralidade. Alguns conseguiram apresentar seus contos sem o auxílio do texto impresso, outros não. Mas todos apresentaram sob a orientação da coordenação, que deu início ao preparo da expressão corporal, postação e tipo de voz, e utilização dos planos físicos (alto, médio e baixo) e manuseio de elementos viturais. Para aqueles que fizeram uso da produção impressa, foram iniciadas as orientações de leitura dinâmica à prática narrativa na oralidade.
Nesse encontro, recebemos mais dois integrantes para a composição do Grupo Boca de Leão.
OBS. Você poderá encontrar as orientações sobre leitura dinâmica e memorização, na página "CRONOGRAMA DE ATIVIDADES LITERÁRIAS" deste blog. 
TAREFA: Para o próximo encontro, cada integrante do Grupo Boca de Leão deverá trazer um Conto de Encantamento, de sua autoria. Os Tipos de Contos estão fundamentados na página de "FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA" DESTE BLOG.