sábado, 5 de julho de 2014

FORMAÇÃO DE CONTADORES DE HISTÓRIAS



16/06/14 - Início do Curso de Formação de Contador de Histórias - Biblioteca Pública de SC/BR.
(app.art.free.fr)
Profª Ms. Claudete T. da Mata, ministrante da Oficina Literária Boca de Leão, aonde desenvolve seu trabalho de maneira voluntária, a qual tem proporcionado aos integrantes do grupo, ainda em processo de formação, uma pequena vivência relacionada à “arte de contar histórias”, juntamente com os encontros de criações literárias, por isso a divisão das tarefas da Oficina Literária Boca de Leão em dois grupos distintos: Grupo de formação de escritores; Grupo de contadores de histórias. Desde 24 de julho de 2012, posteriormente, as pessoas que permaneceram no grupo iniciaram o trabalho da literatura oral através dos “Espetáculos de Contação de Histórias” para diferentes tipos de público, até iniciarem a narração oral para o público infantil, a partir de 2013, resultando na “Trupe de Contadores de Histórias Boca de Leão”. Com a fundação da Academia Brasileira de Contadores de Histórias, foi criado este “Curso de Formação de Contadores de Histórias”, visando o refinamento dos contadores de histórias e membros da Academia, sendo aberto aos convidados interessados por esta arte milenar..

Deste encontro de palavras faladas, sempre que narramos, além de tecer os fios da memória, também tecemos os fios da vida!

RELATÓRIO

Abrimos o curso com uma breve apresentação por meio de um bate-papo, onde todos foram chegando aos poucos e se enturmando. Temos uma nova integrante, Fábia Barbosa Pedro, do Município de Tubarão/SC. Ela é educadora do município, mestranda em processo de elaboração da pesquisa de campo, trabalhando com a cultura da tradição oral. Fábia também é contadora de histórias em busca do refinamento de sua práxis. É integrante de uma associação de contadores de histórias de seu município. Eles estão organizando um festival de contos para o segundo semestre de 2014, e já nos convidou para fazer parte do festival. Ao ouvir sobre a sua atuação na arte de contar histórias, a mentora da Academia Brasileira de Contadores de Histórias convidou Fábia para fazer parte da Academia. Ela, muito feliz, aceitou o convite e tomará posse em 2015 com os demais acadêmicos, representando o Município de Tubarão/SC.

Iniciei o curso, por meio de um diálogo interativo com a introdução do conteúdo teórico/prático, indispensável à preparação do contador de histórias consciente de suas responsabilidades e comprometimentos com o universo imaginário ao entrar em cena frente ao leitor/ouvinte. 

A aula foi sendo conduzida na medida em que as dúvidas e as necessidades de cada um foram surgindo. Numa fruição de desejos em comuns a todos, o pequeno grupo foi exteriorizando os seus anseios, seus medos quando estão diante do público, suas necessidades e o desejo de superação das dificuldades implícitas nas práticas da oral em público. O que mais surgiu? Medos de todos os tipos. Todos do tão temido “branco”, um dos maiores fantasmas dos contadores de histórias, principalmente daqueles tomados pelo medo de errar, e que não se permitem brincar com as ideias de improviso!

Ficou claro a todos, que o improviso exige técnicas, mas que nos momentos em que o fantasma (branco) aparece ofuscando as nossas ideias com o seu clarão, é necessário recorrer ao improviso relâmpago. Afinal, nesses momentos em que a adrenalina toma conta do narrador apavorado, que o contador consciente precisa da tomada de decisão imediata.  Por que não dizer: uma prática de salvamento do narrador perdido no branco. À qual nem todos estão preparados, mas, pela necessidade de salvar o seu narrador em cena, o contador precisa dessa tomada de decisão. Se não consegue fazer isso, então precisa aprender, começando pelo processo de autoconhecimento de seu estilo, suas preferências narrativas, os contos que carrega na sua bagagem (quais e que tipo são?), se sabem ou não separar o narrador do contador...

Enquanto ministrante e orientadora de grupos narrativos, percebo que muitos contadores em vez de correr atrás de suas possibilidades, na resolução dos conflitos causadores de todas as suas dificuldades, tomados pelo medo de estar diante da plateia, também, pela falta de comprometimentos futuros, não se deixam permiti entrar no universo imaginário quando estão em cena. Outros, tomados pelo medo de errar são tomados pelo temido branco que ofusca os fios de sua memória, o fazendo tremer nas bases sem saber o que fazer. Por isso a importância dos jogos de improviso, uma saída do momento que o leva à mudez que pode durar alguns instantes (questão de segundos) que, para o contador apavorado, parece uma eternidade.

Digo tudo isso, porque já passei e presenciei colegas que passaram por essas experiências. Então vejo o desejo de superação como meio mais favorável à resolução das dificuldades causadoras de inúmeros conflitos que, se não forem tratados a partir da agregação de novos saberes, não há como superar dificuldades e impedir a frequência do branco. Caso contrário, sem o comprometimento consigo mesmo, os contadores de histórias  estarão com baixa confiança que, por sua vez, desencadeia a baixa autoimagem por terem a autoestima prejudicada (em baixa). Situações estas, que afastam o narrador do contador que passa a se apegar à prática da leitura, pensando que desta forma estará livrando-se do fantasma denominado “branco”. 

Neste contínuo, com todos envolvidos numa prática interativa, fui apresentando a proposta do curso, conduzindo a aula na medida em que as necessidades foram surgindo a partir da fala do grande grude grupo. E todos foram se dando conta das suas reais necessidades de estudo para o crescimento e o refinamento da práxis da oralidade, a começar pela importância do contador ter consciência de seu estilo, suas preferências narrativas, suas necessidades de escolher com sapiência o conto a ser narrado; conhecer o narrador, estudar o enredo, conhecer as personagens; saber entrar no universo imaginário e fazer uso da linguagem simbólica sem inventar coisas sem condições de fazê-las. 


O grupo teve à sua disposição, um momento de reflexão em que cada participante pode pensar sobre a importância de participar de outros processos de formação com outros ministrantes por estes serem diferentes na sua forma de atuar (estilo próprio). Algo importante à agregação de conhecimentos sobre as diversas formas de contar histórias, partindo daí à definição de seu próprio estilo. Ficou claro ao grupo que, para alguns há a agregação de estilos pela forte influência do ministrante sobre os alunos, porem, nem sempre é assim. Cada contador tem seu jeito próprio de desenvolver o seu estilo, seu ritual, sua forma de narrar, de se vestir, de entrar em cena, de interagir (ou não) com o público... Esse foi um momento de discussão que gerou uma série de informações e trocas de experiências entre os participantes.

Nesse processo, dentro do meu estilo (batizado por muitos, de estilo eclético), buscando atender os diferentes estilos de aprendizagem presentes no grupo, aos pouco, fui alcançando cada participante, fazendo uso da metodologia de ensino psicopedagógico, levando os alunos ao processo de aprender a aprender sem que os mesmos ficassem retraídos e confusos. Dessa maneira, todos foram ficando à vontade, envolvidos e interessados pelos conhecimentos apresentados. 


Na medida em que o conteúdo foi sendo apresentado e discutido, entre uma apresentação teórica e outra, acontecia uma demonstração prática e interativa, deixando a aula mais animada, evitando as costumeiras distrações frequentes nos cursos de formação.


Ao falar sobre a escolha dos livros e suas histórias, ficou  evidente a necessidade, antes de tudo, de sua aceitação por parte do contador ao ser escolhido pela própria história, daí por diante, a importância de seus estudo. Segundo a manifestação de Andrea Dias: Luiza, ao encontrar a história a ser narrada por ela no dia 2 de junho, me falou que este momento é como um namoro entre as histórias e o contador.  Foi quando falamos a todos sobre o processo de escolha do conto de Luiza Dias (11 anos), quando foi convidada por Cléo Busatto, para narrar um dos contos de seu livro "Mitologia dos 4 Elementos". 


A autora enviou por e-mail (para mim) quatro contos. Luiza estava em minha casa, quando fizemos a leitura dos quatro e por ultimo, Luiza escolheu dois e os levou para casa (em Navegantes/SC). Assim poderia estudá-los e ver qual dos dois seria narrado no dia 2 de junho em homenagem à fundação da Academia Brasileira de Contadores de Histórias.

Em casa, ela com a história escolhida, antes, foi preciso de uma conquista mútua que resultou no namoro entre o conto e a contadora. Mas para que tudo desse certo (do jeito que aconteceu) houve uma pré-preparação, por isso, o conto e a contadora conseguiram reverberar ao entrarem em cena. Mesmo tremendo, ao ver a autora da história à sua frente, Luiza respirou fundo, sem que a plateia percebesse o seu nervosismo durante a narração oral, segurou o elemento virtual (no momento em que viu Cléo Busatto) e continuou a contação. A pequena contadora de histórias mostrou sua segurança, disciplina e controle psicológico. 

Foi quando todos passaram a entender a importância do momento da escolha das histórias e da organização do contador no processo de estudo, a começar pelo processo de memorização ao estar narrando um conto de outro autor, porque precisamos ser fiel ao autor e sua história. Salvo os contos que caíram no domínio público, os quais podem ser adaptados pelo contador, caso não apresentem uma linguagem propícia à narração oral. No caso do conto de Cléo Busatto, Luiza foi fiel ao texto por esse não ser de sua autoria, nem uma história de domínio público.  

Todos puderam ver a necessidade de organização das práticas da oralidade, sua disciplina e comprometimento com o universo imaginário, os livros e seu estilo, sem querer ser igual a esse ou aquele profissional. Isso significa seguir seu ritual próprio, evitando decepções e o indesejável “branco”. Por isso, também destacamos uma prática importante ao sucesso da prática da oralidade: leitura do conto em voz alta, pela importância do contador ouvir sua própria voz, seu ritmo, suas necessidades vocais, com também, seus movimentos corporais e suas expressões.

Ao sentir-se atrapalhado, refletindo sobre a ideia do namoro entre os contos e os contadores, o conto corre em busca de um contador consciente, mais informado e de portas abertas. É quando os dois estão prontos um para o outro. Então eles contam e encantam o leitor/ouvinte, ávido de saber, curioso e certo de que poderá entrar numa viagem única, mesmo sem se dar contar de todas as possibilidades que uma boa histórias e seu narrador podem lhe proporcionar.  Ao ouvir sobre esta possibilidade, alguns contadores preferem a prática da leitura, pensando ser mais cômoda e livre do "branco'. Foi quando abri um momento de reflexão sobre a prática da mediação da leitura e a necessidade de técnicas favoráveis às necessidades do leitor/ouvinte e sobre os possíveis riscos que correm o contador/leitor, dando lugar à fala de Andrea Dias ao fazer uma leitura em voz alta, do conto narrado por Luiza, mostrando a todos que ler não é tão fácil quanto parece.

As exigências que dão vida à uma leitura de qualidade, são maiores que o ato de contar, por precisar de técnicas que favoreçam movimento e interações que impeçam a desmotivação do ouvinte, caso o leitor tenha uma leitura linear, sem movimentos que animem o ouvinte, do início ao fim. E o contador ganha mais forças ao ver seu rebento crescer mais e mais a cada leitura, a cada apresentação. Tudo isso só é permitido quando o namoro dá certo. Então o casamento acontece. É quando conseguimos fazer como Luiza fez: no momento em que estamos diante do autor, trememos sem que ninguém perceba, engolimos a saliva, respiramos fundo e continuamos a narrativa. 

E o contador ganha mais forças ao ver seu rebento crescer mais e mais a cada leitura, a cada apresentação. Tudo isso só é permitido quando o namoro dá certo e o casamento acontece. Por sua vez, o contador de histórias passa a entender que:
Neste contínuo, a escritora contista Cristina Klein, animada, fez a leitura do mesmo conto narrado por Luiza. Em voz alta, Cris percebeu sua necessidade de estar trabalhando a sonoridade vocal, seu ritmo, seus limites e as possibilidades de aperfeiçoamento e crescimento em contato com o público. 

Para exemplificar, narrei o conto da "Cobrinha enxerida!" Adaptação de Honorino Angelo Demarchi, com o qual mostrei ao grupo as possibilidades que os contos de domínio público oferecem aos contadores, no uso de uma variedade de técnicas e uso de elementos cênicos, expressões corporais, jogo de improviso (quando se sabe fazer), voz e movimento, uso das figuras de linguagem, exploração do ambiente físico na utilização dos planos alto, médio e baixo, dando continuidade no próximo encontros.

Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido.
(Fernando Pessoa)


De acordo com os fundamentos de Cecília Meireles, a prática da leitura e da literatura oral, em especial os contos, é, de suma importância na aquisição de conhecimentos e da própria cultura, por isso deveriam ser realizadas com mais frequências, tanto pelas crianças quanto pelos adultos.

O gosto de contar é idêntico ao de escrever – e os primeiros narradores são os antepassados anônimos de todos os escritores. O gosto de ouvir é como o gosto de ler. Assim, as bibliotecas, antes de serem estas infinitas estantes, com as vozes presas dentro dos livros, forma vivas e humanas, rumorosas, com gestos, canções, danças entremeadas às narrativas. (MEIRELES, 1979, p. 42) [...] é a Literatura Tradicional (literatura oral) a primeira a instalar-se na memória da criança. Ela representa o seu primeiro livro, antes mesmo da alfabetização, e o único, nos grupos sociais carecidos de letras. Por esse caminho, recebe a infância a visão do mundo sentido, antes de explicado; do mundo ainda em estágio mágico. Ainda mal acordada para a realidade da vida, é por essa ponte de sonho que a criança caminha, tonta do nascimento, na paisagem do seu próprio mistério. Essa pedagogia secular explica-lhe, em forma poética, fluida, com as incertezas tão sugestivas do empirismo, o ambiente que a rodeia, - seus habitantes, seu comportamento, sua auréola. Vagarosamente elaborada, pela contribuição de todos, essa literatura possui todas as qualidades necessárias à formação humana. Por isso, não admira que tenham tentado fixá-la por escrito, e que, sem narradores que a apliquem no momento oportuno, para maior proveito do exemplo, a criança se incline com ávida curiosidade para o livro, onde esses ensinamentos perduram. (MEIRELES, 1979, p. 66. 
Para a autora,  os relatos orais, vistos como literatura tradicional, tem sua significativa influência na cultura da literatura escrita, tão apreciada pelas crianças e muitos adultos, em especial os contadores de histórias.

Ao final, fechamos o encontro com uma dinâmica d encerramento.
Bibliografia


MEIRELES, Cecília. Problemas da Literatura Infantil. São Paulo: Summus, 1979.

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Para o próximo encontro (dia 10 de julho), estaremos trabalhando com os fundamentos teóricos de Cléo Busatto. 

OBS. Na medida em que os encontros forem acontecendo, estarei inserindo a bibliografia utilizada.