domingo, 26 de outubro de 2014

DIA 16 DE OUTUBRO: ANIVERSÁRIO DE UM BRUXO DA ILAH DA MAGIA, O PATRONO DA PRIMEIRA ACADEMIA BRASILEIRA DE CONTADORES DE HISTÓRIAS - SECCIONAL SC.

 

FRANKLIN CASCAES
Seo Frankolino ia onde as histórias estavam.

Diz a Senhora História que há muitos anos, lá no século passado, um bando de bruxas muito malinas resolveu se reunir na praia da ponta de Itaguaçu, antigo vilarejo do município de São José da Terra firme. Era uma sexta-feira de lua cheia, quase beirando a primeira hora de sábado. As malinas costumavam frequentar esse lugar para tramar as suas malinagens. Mas nessa note o assunto era sério: Elas estavam vendo o próprio fim e só uma pessoa conseguiria imortalizá-las.

Nessa noite, com a lua parecendo encostar nas águas do mar, o bruxedo foi chegando. A primeira a chegar foi a bruxa Malvina, que costumava colocar sal da mamadeira dos bebês. Os pobrezinhos pareciam vomitar a até as tripas, de tão reviradas que elas ficavam. 

A segunda a chegar foi Tiaga. Ela chegou contando o que fez durante a sua viagem até o local da reunião.

- No caminho pra cá, peguei um tantão de criancinhas de colo e fiz cócegas nos seus pezinhos até elas se afinarem de tanto rir. E, quando as mãe correram pra ver o motivo de tantos risos, ficaram apavoradas. As crianças ficaram de olhos tão arregalados que pareciam saltar da cabeça. Então elas pegaram as risonhas e as sacudiram até as criaturinhas voltar ao estado normal.

- Essa Tiaga não cria jeito, né? - retrucou a Malvina parecendo uma santa.

Depois da Tiaga chegou a Laurita, uma bruxa muito engraçada. Mas na só na aparência. Ela era muito mal humorada. Sempre chegava tropeçando em algo e e intrometendo na vida de alguém. Desse vez ela pegou no pé da Tiaga.

- Tiaga, já aqui? Depois das vassouradas que te deram, pensei que não vinhas. Pensa que não vi quando saísse no pelo daquela gata barulhenta, é?

E as duas começaram a discutir, até que Malvina entrou no meio das duas separando-as com uma vassourada nas costas de cada uma delas.E nessa muvuca, chegou a Jurema, uma bruxa sorrateira.

- Meninas, o que é isso? Meu faro nunca me engana. Quando eu tava vindo pra cá imaginei como seria se a Laurita chegasse antes de mim - um desastre. E não que foi? Essas duas merecem mais que vassouradas, viu Malvina? Dá uma surra de vara de marmelo na bunda dessas duas que elas nunca mais te incomodam! 

- Para lá sua metida, que a conversa ainda não chegou no pé da tua orelha, visse? - retrucou Laurita, sendo interrompida por Malvina, a líder do bando.

E se formou um disse me disse entre o bruxedo, que foi coisa feia e impossível de saber o que elas falavam.

Logo chegou a Esponja, uma bruxa sensível de tanto que tentava apazigua a vida do grupo.

Tiaga se transformou numa gata e começou a enrolar o rapo felpudo nas pernas da Esponja que a pegou no colo e fez cafuné na sua cabeça peluda.

Em seguida chegou a Jacinta bem quieta, já sentando ao lado da Esponja. As duas eram muito amigas.

De mansinho, chegou Molenga, quase ao arrasto. E todas começaram a tagarelar e a gargalhar. Parecia um bando de maritacas.

Finalmente chegou a Augusta.

- Chefa, desculpe o atraso, mas quando eu ia vindo pra cá vi três fadas - que nojo, elas estavam cochichando algo que me despertou curiosidade e fui me chegando de mansinho, disfarçada de borboleta pra não espantar as nojentinhas. Sabem o que descobri?

- Não!!! - falaram todas ao mesmo tempo.

- Pois então... - disse Augusta em tom de segredo, falando tudo o que ouviu:  - lá tava eu entre duas folhas de bananeira quando ouvi uma das nojentinhas dizer que daqui nove meses vai nascer um menino aqui por perto. Enquanto viver, ele terá a missão de colher todas as histórias que puder. E vai ser em forma de manuscritos, imagens feitas em barro, em desenho, em escultura, blá, blá, blá, blá, blá, blá... Um montão de besteiras. Cada uma das nojentinhas deram um dom pro tal gurizinho que olhem, não deve nascer.

- É mesmo - retrucou Laurita - onde já se viu um guri que nem nasceu ainda, já ganhar um montão de dons!

Nesse momento, Malvina interferiu:

- Epa, epa! Vamo parar e por a cabeça pra pensar! O nosso problema parece que vai ser resolvido, justo com o nascimento desse tal menino. É isso mesmo! É ele a pessoa que não vai deixar a gente morrer. Digo, cair no esquecimento do povo.

- Era isso que a gente queria! Agora tá tudo resolvido - não seremos mais esquecidas porque o tal protegido das nojentinhas vai ser o nosso protetor... Que nojo! - disse Augusta cuspindo no chão.

Quando o galo vermelho cacarejou, Esponja falou:

- Meninas, o galo branco já cantou, o vermelho cacarejou, então tá na hora de acabar a reunião porque o galo preto não demora a cantar...

E todas saíram na maior pressa. Umas voando em suas vassouras, outras em forma de morcegos e mariposas, outra em forma de gato a correr pelo mato, outra resolveu voltar para casa a pé, caminhando pela praia de Itaguaçu.

Nove meses depois, no dia 16 de outubro de 1908, em Florianópolis, nasce um menino batizado com o nome "Franklin Cascaes", que depois de cumprir a sua missão, faleceu em 15 de março de 1983. 

Tal como previram as fadas, ele foi um pesquisador da cultura açoriana, folclorista, ceramista, antropólogo, gravurista e escritor brasileiro. Dedicou sua vida ao estudo da cultura açoriana na Ilha de Santa Catarina e região, incluindo aspectos folclóricos, culturais, suas lendas e superstições. Usou uma linguagem fonética para retratar a fala do povo no cotidiano. 

Seu trabalho somente passou a ser divulgado em 1974, quando tinha 66 anos.

No ano de 1983, um acervo chamado "Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes", que ainda está em fase de documentação, foi criado, com doações do próprio autor contendo suas obras artísticas. Hoje, o acervo está sob a guarda da Universidade Federal de Santa Catarina, que realiza um bom trabalho na conservação do frágil acervo do mestre. São aproximadamente 3.000 peças em cerâmica, madeira, cestaria e gesso; 400 gravuras em nanquim; 400 desenhos a lápis e grande conjunto de escritos que envolvem lendas, contos, crônicas e cartas, todos resultados do trabalho de 30 anos de Franklin Cascaes junto a população ilhoa coletando depoimentos, histórias e estórias místicas em torno das bruxas, herança cultural açoriana.

Em 1991 a extinta Rede Manchede produziu a minissérie Ilha das Bruxas, escrita por Paulo Figueiredo a partir da obra de Frankiln Cascaes.

Em 2008, no centenário de seu nascimento, o pesquisador foi homenageado com o livro Treze Cascaes, uma coletânea de treze contos de diferentes autores, que recriaram uma história em cima das histórias de Franklin Cascaes. O livro é dedicado a resgatar a cultura.

Neste livro podemos encontrar um pouco do que ainda continua sendo aquele que sempre chamei de catador de contos: Franklin Cascaes, o Patrono da primeira Academia Brasileira de Contadores de Histórias/ABCH, Seccional Santa Catarina, com foro em Florianópolis.


Em 2011, com o grupo de teatro Letras no Jardim, consegui levar para o palco do teatro da UFSC, o meu roteiro teatral - A peça "Lenda das Pedras de Itaguaçu", baseado em relatos sobre os contos de Cascaes. Nessa peça retratei um pouco do que vivi na ilha onde nasci e no que vi nos contos que me contaram. No YouTube está a filmagem da peça. Basta ir em Claudete da Mata onde tem a "Festa das Bruxas da praia de Itaguaçu". mas se você procurar no nosso blog, em postagens antigas, creio que irá encontrar.  
 
*Por Claudete T. da Mata
   Mentora da ABCH 

Fonte de pesquisa: Livro "Os 13 Cascaes" e
pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_Cascaes
 Se um dia Franklin voltar, ficará horrorizado ao ver as suas bruxas esguritadas pela Ilha da Magia!