terça-feira, 21 de abril de 2015

Dia 16 de abril: 20h - Minha participação no II Festival Nacional de Contadores de Histórias, em Ponta Grossa/PR/BR

POR QUE HÁ TANTAS ESTRELAS NO CÉU?
De Leonardo Boff - Narração oral: Claudete T. da Mata

Dia 16 de abril, Teatro Cine Ópera/Ponta Grossa/PR
Fotos de Willian Gama (Contador de Histórias)

Ilha de Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro, recanto de Sol e Mar. Terra povoada por índios, vicentistas e depois por açorianos, gente simples e pacata. Povo devotado à pesca, à agricultura e à religiosidade.

Nesse tempo as histórias eram passadas de pais para filhos ao pé do fogo do fogão à lenha, quando os mais novos sentavam ao redor do fogo para ouvir os mais velhos as suas contar histórias narradas de qualquer jeito, meio truncadas e aos pedaços. Eram histórias contadas nas noites de Lua.
As preferidas eram as histórias de bruxas. Mas, as crianças, falar nelas era proibido, imaginar nem pensar, pois todos tinham medo de atrair as bruxas. 
Então hoje, a história que vou contar é uma em homenagem ao escritor Leonardo Boff e ela começa assim:
O índio Carajá amava a natureza e mais que tudo, os animais e os pássaros com os quais ele sabia se entreter usando a linguagem deles.
Certa manhã, ao ver um bando de papagaios voar bem longo, o Carajá se deu conta de que o firmamento estava vazio. Nenhum astro o embelezava. 
O clarão do dia, especialmente sob a canícula tornava o céu cinzento. 
- Por que o céu é assim tão vazio? - pergunto o índio aos pássaros que estavam numa árvore próxima. Mas eles fingiram não entender a pergunta, mesmo que aquela voz lhes fosse tão familiar.
O índio com voz forte, quase lancinante perguntou de novo:
- Por que o céu é assim tão vazio, respondam-me por favor?!
A raposa precipitou-se e disse, quase em tom de acusação:
- Foi o Urubu-Rei, rei das alturas que pegou as estrelas para enfeitar seu penacho e torná-lo ainda mais resplendente!!!
Ao ouvir isto, o índio Carajá decidiu tirar a limpo a questão com o Urubu-Rei, pegando as armar e indo em busca do refúgio onde ele se aninhava. 
Ao vê-lo aproximar-se, disse-lhe logo o Urubu-Rei:
- Você é quem vem desafiar-me? Você não conhece pequeno homem, as forças das minhas garras e do meu bico. Em pouco minutos posso abrir as suas veias e deixá-lo em pedaços!!!

O índio que no fundo amava os animais, deixou cair as armas e avançou sobre o Urubu-Rei. Foi uma luta longa e sanguinolenta entre penas e gritos. Se o Urubu-Rei tinha forças, o índio Carajá tinha habilidades de se livrar dos cortes e das bicadas potentes, até que conseguiu imobilizar o Urubu-Rei, prendendo-lhe bem as pernas e segurando-lhe bem forte o bico.
- Se quiseres ter de volt a liberdade, então devolva as luzes que escondes na cabeça e nas plumas do corpo. O Criador colocou as estrelas no céu para embelezar a noite e não para alimentar a tua vaidade.
Acontece que o Urubu-Rei que detinha também o segredo da eterna juventude, não quis renunciar às luzes. De que valeria a pena ser eternamente jovem e feio? 
Cansado de esperar a resposta do Urubu-Rei, o índio Carajá começou a arrancar suas penas. E cada pena lançada ao alto se transformava numa estrela lá no firmamento. Com um chumaço de pena lançado ao alto, surgiu a via-láctea, com outro chumaço eis que surgiu a Lua Cheia. Com outro chumaço maior ainda, pelando de vez a cabeça e o pescoço do Urubu-Rei, nascia o Sol.
E diante daquele grande esplendor, o índio Carajá disse de si para consigo:
- Bom seria se o Sol em respeito ao brilho tênue das Estrelas e da timidez da Lua se escondesse um pouco.
Acontece que o Sol ouviu este pedido do índio e lhe atendeu o desejo. E com a chegada da noite o Urubu-Rei aproveitou para fugir. Agora ele já não sustentava mais um penacho cintilante e um pescoço luzidio. Agora a sua cabeça parecia mais uma casca de laranja cortada ao meio e seu pescoço um ramo de galho seco. Enquanto fugia mata a dentro ia gritando em tom de deboche para colocar medo no índio.
- Você me levou as luzes, mas ainda guardo comigo o segredo da eterna juventude...
Enquanto fugia o Urubu-Rei ia sussurrando o segredo da eterna juventude. Acontece que o índio Carajá não ouviu nada, mas as árvores e os pássaros ouviram tudo. É por isso que de tempos em tempos as árvores trocam suas folhas e os pássaros trocam suas penas. E o índio Carajá ainda continua sendo lembrado em sua tribo quando ele se reúne nas noites de Lua ao redor da fogueira, onde os mais novos se sentam para ouvir os mais velhos contar a histórias do Céu e da Terra, do Sol e da Lua, das Estrelas e de todo o Firmamento.

E esta histórias não acaba por aqui,
Sei que de hoje por diante, a partir dela, outras histórias vão surgir!

Nota da Contadora: Querido Leonardo Boff, para socializar este conto maravilhoso que sempre me leva ao encontro da minha ancestralidade indígena, por parte de pai, quando a Ilha de Santa Catarina era povoada por índios, fui obrigada a fazer minúsculas adaptações para narração oral e levá-lo à outras tribos do nosso Brasil. Antes da apresentação, arrumei o Velho João, o filho da bruxa, mas ele só foi narrado no local onde todos os contadores ficaram alojados. Depois posto a filmagem do Velho João, o filho da bruxa. Aprendi muito neste Festival. Claudete T. da Mata