domingo, 26 de abril de 2015

O MENINO DESMEMORIADO E UM MACACO FOLGADO! SERÁ?

Autoria: Claudete T. da Mata (2012)

No miolo de uma floresta tropical, vivia Grunet, um menino muito esperto. Ele era do tipo que tudo queria saber. Sempre estava a virar as coisas do avesso. Era pura curiosidade. Dizem que ele aquecia o vento, cortava as correntes do grande rio que hidratava os veios da flora e da fauna. Este menino dava nó em ponta de fumaça, pintava as nuvens no céu e rasgava as pedras para ver o que havia dentro delas. Ele fazia coisas incríveis.

Certa vez, quando Grunet subiu a colina de volta para casa, algo pulou nas suas costas. Era um macaco. Apavorado, sem saber o que lhe agarrava com aqueles braços peludos, Grunet correu mais que o vento. Subiu a colina feito raio a riscar o caminho, sem saber o que acabara de fazer.

Ao chegar em casa, Grunet correu para dentro do quintal de casa e se sacudiu..., sacudiu, sacudiu... Sacudiu-se todinho, até não sentir mais aquela agarrada apertada. Sem fôlego e bastante exausto, o menino entrou em casa. Sacudiu-se mais um pouquinho a chacoalha todos os seus membros. No quarto, retirou a roupa do corpo e correu até o espelho para olhar-se dos pés até até a cabeça... Foi quando viu na soleira da janela de seu quarto, um macaco todo azul, que parecia assustado. Os olhos do macaco estavam esbugalhados, com suas orelhas a tremer.


O macaco, mais apavorado que o menino, começou a tagarelar:

- Uh uh uh... ua ua ua...

Eram dois sons que o menino entendia: as vogais “U” e "A". Então Grunet pegou o macaquinho e o abraçou forte. Ele acalmou o animalzinho, que mais calmo, abraçou o menino com tranquilidade. Os dois se abraçaram.

Depois de sentir o pulsar do novo amigo, bem tranquilo, Grunet o levou até a cozinha e lhe deu uma penca de bananas bem maduras, para o macaco comer. Vendo o macaco a devorar todas as bananas, feito uma draga, Grunet batizou o amigo de Azulão Comilão. Depois de encher a pança, o Azulão Comilão esticou os braços para cima a se espreguiçar. Era hora de tirar aquela soneca.

Ao ser levado no colo do menino para o quarto, o macaco, sem perder tempo, foi logo pulando na cama do amigo. O menino, também cansado, deitou ao lado do macaco. Os dois dormiram profundamente. Enquanto dormia, o corpo de Azulão Comilão foi ficando incandescente. A cor azul transformou-se numa luz forte, que tomou conta do quarto e ultrapassou as paredes e todos os cômodos da casa. Foi fenomenal.

Grunet, parecendo ser tocado pela luz, acordou e saiu correndo do quarto. Agora ele já não estava mais a entender nada, entretanto, ao sair de dentro de casa, viu o que estava a acontecer e se divertiu com o resultado do fenômeno. As borboletas tomaram conta da parede da casa. Eram milhares de borboletas das mais variadas cores e tamanhos. E o menino tomado de encantamento, se divertiu muito com as borboletas. Sobre a cama, o macaco continuava a dormir. Até roncava e assoviava.

Ao perceber que o fenômeno era o próprio Azulão Comilão, Grunet correu até o novo amigo sem ver quando ele se levantou a flutuar indo até Grunet, numa postura de agradecimento pelo bem recebido. E logo, num piscar de olhos, o macaco desapareceu sem se despedir do menino. Entretanto, se foi deixando o mundo do menino todo colorido.

Ao chegarem em casa, seus pais não acreditaram no que viram. A mãe, boque'aberta, soltou um grito antes de chamar pelo pai do menino.

- Marido, veja... o que é isto? Eu te falei que ia acontecer algo.. E aconteceu.

- Mulher, eu te disse que a gente não deveria deixar o nosso filho brincar solto por aí. Agora só falta ele dizer que foi o vizinho quem pintou tudo isso sozinho.

Neste momento, Grunet chegou radiante, falando pelos cotovelos.

- Pai... Mãe! Vejam o que aconteceu... Mas não fui eu... Foi o Azulão Comilão.

- Quem é este tal de Azulão Comilão? – a mãe quis saber ao ser interrompida pelo marido.

- Só falta ele dizer que é um mago com uma varinha mágica que pintou nossa casa inteirinha, da porta da sala até a cozinha.

- Não foi eu!... Quem fez isso foi meu amigo azulão, um macaco todo azul e se vocês querem ver, ele está lá no meu quarto descansando com a pança bem cheia de bananas.

A mãe correu até o quarto do filho e nada viu.

- Grunet Grunet... Onde está o tal amigo?

- Tá no meu quarto, mãe!!!

- Não vejo nada de macaco. Aonde foi que ele se meteu? Azulão, onde você etá, responda macaco folgado...

O pai, ao ver e ouvir a mulher à procura do macaco folgado, falou querendo encerrar a questão:

- Mulher, até quando irás com este blá blá blá... Não vê que este menino está desmemoriado? Não existe nenhum macaco azulão!!!

E por mais que desejassem se expressar, o menino e o macaco continuaram sozinhos: Grunet brincando no seu mundo colorido e o Azulão Comilão cada vez mais folgadão.

]dizem que a mãe de Grunet procura o macaco azulão até dentro do colchão. O pai do menino ainda insiste no mesmo pensamento. Enquanto cada qual continua do mesmo jeito, o macaco folgadão cresceu e estão bem grandão. 

E quem disser que Grunet é um menino desmemoriado, jamais soube o que é ser um menino de verdade.

Grunet também cresceu e continua sua amizade com o amigo macaco folgado. Com o seu trabalho bem remunerado, o menino sustenta o amigo do coração. Afinal, o macaco folgado come que nem leão.

Esta história passou por aqui e pode morar no seu quarto. Você aceita ter um macaco folgado? O Grunet deixa o macaco morar por uns tempos no seu quarto. Mas não conte nada a ninguém, senão vão dizer que você é um menino folgado e tem no seu quarto um macaco desmemoriado.