quinta-feira, 25 de junho de 2015

Dia 12 de Junho: Tarde de agito e uma noite única na vida do Boca de Leão!

Ao chegar na Biblioteca Pública de SC (BPSC), encontrei a Leoa Fábia Barbosa, Albertina e Mariane. Estavam ansiosas à minha espera. Eu, prestes a completar os meus 57 anos de viagem, também estava cheia de vontade de chegar e viver mais um momentos único. Só não consegui dar atenção ao grupo das 15h, porque tive que cuidar de situações importantes, daquelas que não podem esperar. 
(Fábia ao lado esquerdo e Albertina Fonseca a nos olhar com o seu jeito de menina.)
O grupo entendeu porque na nossa Matilha todos sabem como subir nas asas do condão quando não consigo estar presente.

Foi um encontro de entrevista. Até a Albertina me fez companhia.Falei sobre a minha trajetória - da minha meninice até aqui. Mostrei como faço para deixar fluir a narradora que está em mim. Ao ser questionada sobre os categorias literária que mais gosto de contar, deixei transparecer o meu gosto pelas histórias das mulheres sábias, consideradas pelo povo da época: Bruxas. Deixei claro que na minha visão, desde criança, estas mulheres nunca me intimidaram. Elas não assim tão maldosas quanto vivo a escutar ao longo dos meus 57 anos. 
Fábia Barbosa, abre a entrevista para a sua dissertação de mestrado em educação.

As minhas revelações foram surgindo sob as janelas da memória onde precisei ir até minha infância. Falamos sobre a diferença entre as curandeiras consideradas bruxas por terem costumes diferentes das mulheres cheias de frescuras sociais. As feiticeiras - mulheres cheias de artimanhas e sempre prontas para colocar os seus planos diabólicos na estrada, devem ser as bruxas ruins que tanto as pessoas vivem a comentar. Gosto das bruxas e não das feiticeiras. As ruins não aguentar ficar perto de mim. Elas até entram nas minhas histórias, entretanto, deixo-as boas, mesmo que alguma dessas mulheres tente fazer o que muitos temem: Maldade.

Também falei sobre a minha vivência no tempo em que meus pais escolheram uma casa de ex-escravos para morar. Era uma casa mal assombrada. Nesse tempo, os quintais eram grandes e rodeados de grandes árvores onde as crianças brincam livremente. Nos fundos da casa da minha meninice havia um morro gramado. Eu adorava rolar morro abaixo. Era muito divertido e de embrulhar o estômago. 

Passei minha infância no meio de um povo cheio de crenças e crendices. No meio de tantas conversas ouvidas embaixo do porão das casas onde morei, o meu imaginário foi sendo alimentado sem que os adultos soubessem. Nos fundo da mata da casa mal assombrada havia uma goiabeira gigante para o meu tamanho. Ela tinha um galho rasteiro onde eu sempre encontrava um velho da cor negra, sempre a cortar um pedaço de tabaco (fumo), para fazer um cigarro de palha. Mas eu nunca entendi por que havia no canto de sua boca, um cachimbo sempre a soltar fumaça. Eu ficava apreciando tudo o que aquele velho fazia. Até ouvia o que ele dizia sem soltar as palavras. 

- Menina, um dia tudo isto vai acabar.

Hoje vejo que tudo acabou. A mata onde havia a goiabeira, não existe mais. Só a casa continua lá. Quando passo de ônibus, vejo que os antigos donos ainda não conseguiram vendê-la. No tempo da minha meninice, os adultos diziam que ninguém conseguia morar muito tempo naquela casa devido as almas penadas. É verdade. Quantas vezes minha mãe não conseguia dormir porque pessoas andavam durante a noite ao seu redor. Tinha gente que arrastava corrente, parecendo passos de pernas acorrentadas. Outros gemiam parecendo ser gemido de dor. Alguns sussurravam palavras abafadas. Tinha sempre alguém a cortar lenha com machado, no tronco que havia atrás da casa. Até Eu, de tanto ouvir e ver o desespero de minha mãe, também conseguia ouvir tudo isto. Era de arrepiar até os cabelos dos dedos dos pés.

Eu nunca tive medo de brincar no escuro da mata. À Noite dava de ver um facho de luz andar em círculo no meio da mata. Os adultos diziam que eram as almas penadas que saiam da tumba para vigiar os potes de moedas de ouro e prata, todos enterrados pelos donos das terras. Eram pessoas gananciosas e avarentas. Gente que preferia enterrar a riqueza, que deixar para alguém em vida. Outros diziam que era o Boitatá a cuidar da mata.

Do Boitatá eu tinha medo. Diziam que ele tinha uma boca do tamanho da noite. O bicho conseguia engolir um mar de crianças. Curiosa como sempre, Eu ficava escondida atras de um tronco de "cambucá" a espiar o Boitatá. Também diziam que ele protegia os potes de ouro esquecidos pelos donos. O bichão afugentava quem tentasse encontrar as riquezas enterradas na mata. E quando minha mãe levava Eu e meus irmãos para ver a brincadeira-de-boi, ao avista a Bernúncia, Eu lembrava do Boitatá e me tremia todinha. Ela parecia um dragão gigante - do jeito que Eu imaginar ser o Boitatá. Com a minha cabeça cheia de imagens a atiçar o medo escondido dentro de mim, Eu começa a chorar e solicitar que minha mãe voltasse para casa. Na minha imaginação, a Bernúncia parecia querer engolir nós quatro.

Quando o cantador iniciava a cantoria da Bernúncia:

"A Bernúnica é bicho brabo
Engoliu Mané João
Come pão
Come bolacha
Come tudo o que lhe dão..."

Minha mãe olhava o meu desespero e dizia:

- Para de chorar, senão a Bernúncia vai te pegar...

E não é que um dia ela me pegou? Acordei em casa, no colo do meu tio Zé a me abanar. Minha mãe não estava por perto. Diante de tantos acontecimentos, preferia brincar e me virar sozinha. Fui uma criança solitária. Dessas que preferem resolver os próprios problemas por terem aprendido que no meio de outros irmãos, as atenções não são divididas. Elas aprender cuidar de si.

Também falei sobre o meu processo de formação: do ensino primário ao acadêmico. Livros não entravam na casa da minha infância e adolescência. Só papel de embrulhar pães e garrafas de leite (em vidro) com a palavra LEITE DE VACA. Mais tarde, só as cartilhas "Caminho Suave" entravam na minha casa paterna. Minha mãe mal sabia ler e escrever. Ela era da velha cultura familiar: Mulher precisa aprender a cuidar bem da casa, aprender a cozinhar, fazer renda de bilro pra casa e saber cuidar do marido e educar bem os filhos. Ao ouvir tudo isto, Eu sempre dizia:

- Não quero casar, quero ter uma casa cheia de filhos.

Minha mãe ficava apavorada e me batia. Ainda bem que tudo isto também acabou: As cintadas e pauladas que Eu ganhava de minha mãe. Era tanto, que o choro já não chegava mais. De tamanha que era a repressão, me tornei uma criança arisca e um tanto tímida. Bem diferente do que sou agora.

Sobre o meu estilo na arte de contar histórias, falei sobre chuvas de imagens ao fazer uso da minha fala corporal - algo que sempre aconteceu naturalmente. E quando alguém perguntava onde fiz a minha formação nesta arte, Eu ficava sem saber o que responder e desviava o fio da conversa. Só comecei a participar de cursos de formação pelo SESC e outras instituições, depois de 2005. Até então, lá andava Eu a trabalhar na formação de professores interessados pela arte de contar histórias por meio das universidades e outros órgãos que me chamavam para ministrar cursos de capacitações pedagógicas, coordenar projetos voltados a arte da oralidade e outras artes. Foi assim que fui construindo a minha história no universo literário e outros. Também sou oleira. Tenho um forno de queimar argila. Confesso que não sei de onde sai tudo o que tenho feito. Mas sempre gosto de ler os teóricos para me aperfeiçoar mais. Gosto de estudo e pesquisa na área que atuo desde que aprendi a me descobrir e entender o que faço. 

Expresso o meu saber com as asas da alma e as portas do coração. Sinto que a arte é feita de momentos vividos e coisas pensadas. Depois é só reunir todas as ideias e colocar o potencial criativo em prática.

Não sei de onde veio a ideia de que só posso falar sobre o que leio. E o que sabemos, onde fica e para quem vai servir? É preciso que o artista seja uma pessoa pública, com um nome importantíssimo pelo acúmulo de títulos, premiações, viagens por outros países, autor desta, daquela e de outras teorias escritas em livros, um pintor de telas que só os ricos conseguem ver e levar para casa...? No meu olhar, assim como é vista por muitos, Arte é feita, vista e sentida de diferentes formas. É um momento sublime, destes que só as almas sensíveis podem fazer. Arte de verdade não é reproduzida em série. O artista, no seu momento sublime, não consegue fazer a mesma criação em série. Sempre vai haver uma diferença em cada peça, porque a primeira criação sempre será a única pelos detalhes que não se repetem nas suas réplicas.

Então digo: Arte é algo que só os tolos não sabem dizer por não saber sentir as mãos que a gerou, os seres que a habitam, as energias que tocam o sentimento, a capacidade de ver as imagens em cena. E, muitos se limitam na expressão e no espelhamento das ideias nascidas da própria sociedade e seus vizinhos dominantes: os fantasmas que assustam suas almas. Tanto que na minha meninice, como também, muitos ainda fazem - usam elementos da Arte para intimidar os pequenos e assim ter a garantia do poder do mais forte contra o fraco. Aos mais esperto de todos que agem assim, os chamo de tolos. 

Os inteligentes, imaginativos e sensíveis, do seu jeito, sabem como tratar a uma Obra Arte. Mesma dizendo que não nasceu para ser artista, sabe apreciar quem sabe dar corpo e vida às ideias. São os que gostam de ir ao teatro, aos museus, às exposições artísticas e outras categorias, aos eventos onde pode estar diante de algum arteiro e sentar-se numa roda de histórias pelo prazer de ouvir e se encantar com os artistas da palavras. Contar histórias, desde o princípio da humanidade, independente do estilo do narrador, é uma verdadeira "obra de arte". Entretanto, o artista precisa estar sempre aperfeiçoando o seu processo de criação, sempre em busca de mais e mais saberes, saber buscar para fazer com saber. Se errar, saberá como fazer para continuar... Artistas precisam ser humildes na comunicação com o outro, certo de que o seu brilho não faz dele uma estrela. Artista que vira estrela, pode virar um cometa. Eu não quero ser cometa, nunca.

Tem gente que autonomiza a função dos artistas e passam a vê-los como interpretes do cotidiano social e das suas preocupações e valores sociais, muitas vezes conseguindo antecipar a própria evolução do artista ao revelar as consequências de determinadas tendências sociais. Portanto, a arte tem funcionado como um instrumento de crítica em cada momento social.

Não podemos, como tem sido estampado aos olhos de todos, reduzir as criações artísticas nas suas diversas categorias, restrita ao tempo em que foram criadas. A arte, desta forma, também manifesta a invulgar capacidade de superar as limitações próprias do seu universo. Para se compreender o processo de criação artística, é preciso levar em conta dois planos essenciais: 1)Sociedade, onde decorrem os momentos das aprendizagens do artista; 2) O universo imaginário ou fictício constituído pelo artista e corporizado nas suas obras; 3) O artista de posse de sua natureza, ora se faz, ora se apaga, ora se evidência naquilo que faz. Arte é feita por seres arteiros, não pode deuses.

A pedagoga psicopedagoga, que um dia entrou em mim, ainda vive grudada nas minhas expressões. ainda bem que ela sempre habitou os mesmos lugares que Eu.

Ao final, Mariani da Cunha chegou e iniciamos o ensaio para a abertura do Evento "Tempo de Histórias", no dia 04 de julho/2015, no CIC, às 14h. Evento para todas as idades. Gratuito!

Conseguimos clarear muitas ideias numa viagem pela história de quem gosta de fazer o que faz. Também viajamos pelos universos onde vivem os seres fantásticos e seus autores.

Foi uma entrevista com o recurso dos fios da memória e um ensaio surpreendente.

Claudete T. da Mata
Se alguém desejar ouvir mais, é só ir no meu blog pessoal: http://nocaldeiraodoscontosdeencantos.blogspot.com.br