domingo, 18 de outubro de 2015

Narrações levadas pelo "Tempo de Histórias" - Dia 11 de Outubro de 2015.

Dia 11 de outubro, após um delicioso almoço oferecido pelo Presidente da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Santa Catarina - AFFSC, levamos aos filhos, netos e bisnetos dos associados o nosso "Tempo de Histórias". 
Após as palavras iniciais a informar ao público sobre a existência da Academia Brasileira de Contadores de Histórias, com fundação em 02 de junho de 2014, sede em Santa Catarina, a primeira e por enquanto a única do Brasil, nesta categoria - chamei a grande amiga Olga Postal que para todos cantou o Hino de Florianópolis/SC.
Antes da cantoria, a amiga Olga falou um pouco com a plateia, levando ao conhecimento de todos a sua homenagem ao compositor Zininho, o poeta-artista da letra com o ritmo marcha-rancho, escreveu, cantou e nos deixou de presente sua grandiosa obra "Rancho de Amor à Ilha". Zininho, um manesinho da nossa Ilha de SC/BR, antes Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, na sua inspiração escrevia verdadeiras obras de arte em palavras para registrar momentos únicos - muitos deles viraram músicas que mostram as belezas da Capital de SC.
Dona Olga é outra maravilha na arte da cantoria. Ela é moradora do Continente de Florianópolis, Bairro Coqueiros, um lugar cheio de praias lindas. Entretanto, com o advento da modernidade, começaram as construções dos arranha-céus de frente para o, restaurantes, bares, pontos de encontros noturnos, mais e mais novidades... E os esgotos começaram a ser canalizados para as águas que antes todos podiam se banhar. 

O tempo foi passando, as autoridades políticas sempre a fazer as promessas de descontaminação com a retirada dos esgotos que desembocam no mar, e nada de cumprir as formidáveis promessas que elegem os santos carregados de boas intensões.  Enquanto isso, a população moradora do Bairro cheio de praias lindas, porém, contaminadas pelos esgotos do progresso vai seguindo sua vida exalando a maresia que antes tinha outro aroma. Muito me banhei nestas águas que hoje, sem a visita dos "botos" e dos atrativos cardumes de peixes que abasteciam as casas de muitos moradores da localidade.

Então busco nos fios da memória a imagem de meu pai saindo após um dia de trabalho na joalheria da Rua Felipe Schmidt, mais tarde conhecida como Joalheria Pérola (do padrinho de meu pai, o ourives Zaguini, na época o primeiro da Ilha de SC, aquele que ensinou ao meu pai Sininho, que foi o segundo ourives da Ilha, a desenvolver a arte de fazer joias - um verdadeiro designers de joias, que nunca frequentou os bancos acadêmicos para aprender esta incrível arte a fluir de sua imaginação que escorregava por suas mãos feito mãos de magos a fazer suas alquimias por detrás desta antiga função intitulada de "ourives": Artesãos do Ouro e da Prata, entre outros metais apreciados pelos clientes). Meu pai, para se distrair, saia a pescar com os seus caniços e sua tarrafa levando para casa, todo orgulhoso, um balaio de grosso cipó abarrotado de apetitosos "frutos do mar". Um dia levava os deliciosos peixes-espadas que ele, na sua habitual paciência, as limpava e as transformava em filé que eram de lamber os beiço após fritos ou assados na grelha no forno à lenha; outro dia era a vez das tainhotas que iam à frigideira e saiam crocantes a serem degustadas com o "pirão de naio" (na fala dos manezinhos da Ilha de SC) - o pirão de marinha de mandioca feito com água fervente; outro dia era das papas-terra, da corvinota, do baiacu que meu pai sabia e nos ensinou a limpá-lo com o seu método que nos livrava do veneno do peixe que vira um balão para se defender do perigosos predadores: o bicho-homem. Muitos tem medo dos seus espinhos. Entretanto, meu pai me ensinou que, ao inflar, os temidos espinhos do "baiacu" saltam aos olhos do predador para o intimidar. E, na verdade são espinhos que não espetam, que só servem para assustar a gente. 

Quando meu pai saía para caçar siris gordos e cheios de ovas, que nesse tempo davam aos milhares. Os caçadores de siri só os levavam às suas mesas para se deliciarem na companhia dos amigos a degustar esta iguaria com uma boa "cachaça", a verdadeira aguardente (nessa época não se ouvia falar em cerveja). Meu pai não gostava de ingerir bebida alcoólica para não ficar fora da realidade, então bebia a famosa "groselha". Todos degustavam os siris que se alimentavam naturalmente sem ingerir os dejetos hoje jogados ao nosso "saudoso mar".

O "MAR" que hoje banha a Ilha de SC e os Bairros no seu Continente, do início ao seu final.Vejam o que era a nossa natureza salgada, antes do progresso:

Vamos iniciar pelo nosso "Mercado Público" - Viu só que maravilha?
Ponte Hercílio Luz que, por antes, a população passava de ônibus e carros menores sobre sua madeira que fazia TRÁ TRÁ TRÁ..... Era de dar frio na barriga.
Havia quem pela saudosa Ponte passava a pé, utilizando a passarela de pedestre. Ela tinha duas pistas para carros, uma ferrovia central, a adutora de água, as longarinas metálicas e o chão de madeira.
(Monumento e homenagem ao Governador de SC, também Arquiteto - Hercílio Luz)

Foi assim que na Ilha das históricas rendeiras tradicionais, aquelas que ainda tecem nas suas almofadas de renda de bilros as suas tramoias e outros estilos sob o comando de suas ligeiras mãos, conta-se que em 1917 Hercílio Luz fez uma promessa, enquanto aguardava com sua família e um grupo de passageiros, o horário da barca queque fazia a travessia para a Ilha, ele afirmou em voz alta, que: 

            “ No Governo do Estado, mandarei construir uma grande ponte, daquele morro ao Cemitério, para acabar de uma vez com esse suplício, e, vocês que são moços e terão a oportunidade de muitas vezes por ela passarem, lembrar-se-ão de quem a mandou construir."
(Barca de travessia, década 1920)

Hercílio Luz, que havia governado o Estado entre 1894 e 1898, ao voltar ao cargo em 1918 e 1922, cumpriu sua promessa.  Entretanto, Ele não chegou a ver a inauguração da ponte que, no seu projeto original, se chamaria "Ponte da Independência".
Cais Rita Maria, década 1950
Cais Rita Maria - 1957

Cais do Continente, década 1940

Praia da Saudade - Bairro Coqueiros
Era assim no tempo de meu pai e da minha infância. Esta família, provavelmente, por ser bem abastada, fotografou esta memória.
Nesse tempo só as pessoas bem abastardas tinham condições de fazer os seus registros, pois a pobreza nesse tempo, era pobreza no seu real sentido.
Ainda estamos na Praia da Saudade - Bairro Coqueiros, Continente de Florianópolis/SC
Praia da Saudade - Coqueiros
Abaixo: Praia do Bom Abrigo - Coqueiros
Era costume, nos finais de semana as famílias irem à praia para compartilhar as conversas, as guloseimas e todas as gostosuras com os vizinhos. Eram deliciosos momentos vividos pelas crianças de todas as idades. Estendiam as suas toalhas, sobre elas ficavam as gostosuras e ao seu redor a hospitalidade entre as pessoas. Todos podiam se deitar, tomar Sol sem perder a sua sacola de comida e roupas de banho, etc. O povo nativo era gente pacata, humilde e cheia de ombridade. A palava era garantida nos fios da ponta do bigode. Bem diferente dos dias atuais. O máximo que existia, eram os "ladrões de galinha", muito ousados, tinha aquele que após preparar a ave, levava à praia e a dividia com o próprio dono que desconhecia a origem da oferenda. Era a Vida bem vivida!
Quem tinha automóvel, era sinal de que veio de longe e quem não tinha não se intimidava - os vizinhos se uniam e quem tinha um carro grande abria a porta do veículo e lá iam todos à praia.
 Fonte de coleta de dados fotográficos:
http://floripendio.blogspot.com.br/2010/05/hercilio-luz-e-sua-ponte.html;
http://www.folhadecoqueiros.com.br/site/index.php?modulo=noticia&int_seq_noticia=82&int_seq;
http://www.guiasantacatarina.com.br/balneariocamboriu/

O Continente e o Centro da Ilha de SC, com suas Praias hoje só à vista para enfeitar os olhos de quem passam por elas. Ganharam novas formas com os seus calçamentos, estradas paralelas e suas "orlas" assim: VAZIAS. As pessoas sumiram das suas areias, hoje lambidas pelo Sol solitário. Quem gosta de se banhar no mar da ilha, tem que viajar quilômetros de distância, mesmo morando ao lado ou de frente para o "majestoso MAR de águas quentes e tranquilas, parecendo um espelho solitário".

Infelizmente, agora a população de Florianópolis só pode admirar o MAR sem o prazer de banhar-se nas suas águas limpas, nem mesmo de caminhar sobre a sua areia sem medo de contrair um mal desconhecido...
O tempo passou, entretanto, aqueles que ainda sobrevivem às mudanças feitas pelo Senhor Progresso, sentem saudades da originalidade da Ilha de Santa Catarina. Não sou contra as inovações, mas sim contra as invasões que aos poucos vão transformando a nossa Ilha numa selva de construções.
Enquanto isso, parte da "mãe-natureza" está à espera de um pagador de promessas - aquele cidadão eleito pela confiança do povo. Imagino o quão seria fabuloso para os visitantes chegar à Capital de Santa Catarina e poderem se refrescar nas águas que rodeiam o Centro da Cidade e do Continente. Imagine só, a Beira-mar Norte e Sul, por exemplo, com suas águas despoluídas, seria ou não seria uma belezura para quem chega em Florianópolis, poder entrar nas suas águas, serem lambidas pelo Sol e todos os Ventos? Assim acontecia antes da chegada do progresso, da ambição dos políticos, dos interesses empresariais e a falta de consciência dos cidadãos florianopolitanos. Acabei viajando nos fios da memória ao ouvir a nossa amiga Olga Postal.
Ela cantou e encantou crianças de todas as idades. 
Rancho de Amor à Ilha
 Um pedacinho de terra,
perdido no mar!…
Num pedacinho de terra,
beleza sem par…
Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!

Num pedacinho de terra
belezas sem par!
Ilha da moça faceira,
da velha rendeira tradicional
Ilha da velha figueira
onde em tarde fagueira
vou ler meu jornal.

Tua lagoa formosa
ternura de rosa
poema ao luar,
cristal onde a lua vaidosa
sestrosa, dengosa
vem se espelhar…

De Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, esta melodia fez do hino de Florianópolis uma das canções mais populares da Capital de SC. Há vários trechos escritos em placas colocadas à beira da estrada no Morro da Lagoa e no trajeto para o norte da Ilha. Mesmo fora de moda, sua melodia e letra não deixam de ser sucesso desde a primeira apresentação.
A composição musical, no o seu jeito de ser e acontecer, seja em eventos sociais comemorativos, roda de amigos, encontros mil, merecidamente, virou símbolo e hino de Florianópolis. O nosso "Rancho de Amor à Ilha", presenteado por Zininho, em 2015 completa os seus 50 anos bem vividos e cantado Hino. 

A Senhora História registrou num de seus cadernos que Zininho, um poeta-autor de fino trato artístico, ao participar do concurso "Uma Canção para Florianópolis", por pouco não ficou fora com o seu projeto "Rancho". Por quê?

Era final do mandato, quando o prefeito da Capital de SC, na época Paulo Gonçalves Weber Vieira da Rosa, o conhecido General Vieira da Rosa, além de reconquistar a simpatia da população queria deixar uma marca na sua  administração.
Foi quando o concurso aconteceu um ano depois do golpe militar de 31 de março de 1964, com o afastamento de João Goulart (Presidente da República), com a tomada do poder pelo Marechal Castelo Branco. Instalou-se o Regime Militar (Ditadura Brasileira até 1985 sob a alegação de que o país estaria sofrendo uma ameaça comunista. Então, finalizou-se o Regime Democrático no Brasil, com a eleição (pelo voto indireto de um colégio eleitoral) de Tancredo de Almeida Neves, em 15 de janeiro de 1985. O Presidente Tancredo, tomado por uma infecção generalizada (em 14 de março do mesmo ano), em 21 de abril os brasileiros recebem a notícia de seu falecimento, em cadeia nacional. Com a morte de Tancredo Neves, José Ribamar Ferreira Araujo da Costa Sarney (em 21 de abril de 1985) assume a Presidência da República e governa o Brasil até 1990. Mas o manezinho Zininho, com a sua criação guardada pela Senhora Histórias, governa o Hino" Rancho de Amor à Ilha" até os hoje, certamente - amanhã e ainda depois. Pergunto: "Quem irá criar um hino além deste?"

Desde os tempos mais remotos, a humanidade vem se utilizando de instrumentos sonoros para extrair suas criativas melodias, cada qual com o seu papel importante na constituição de da identidade, seja individual ou regional. Além disso, é uma grande auxiliadora na criação de raízes ao preservar a história de cada região ou pessoa. Assim como aconteceu com Zininho que, ao passar por um concurso numa época em que tudo deveria acontecer tal como mandava os bons costumes politicamente arquitetado, ele conseguiu deixar sua identidade pessoal e perpetuar em cada estrofe da letra do hino "Rancho de Amor à Ilha", cada momento da tradição florianopolitana, desta Ilha tão cobiçada por quem chega até ela e não volta mais à sua Terra Natal. A Senhora História mostra muito bem esta capacidade de criação, a começar pelo futuro que na sua maioria nasce do passado que cultua a cultura a ser usada para fortalecer o crescimento no presente. Foi por tudo isto que, mesmo sendo um hino, o Rancho de Amor à Ilha ganhou diversas versões ritmos musicais. Foram 50 anos cantada, tocada e levada a todas as querências. Zininho continuará sendo aquele que há 50 anos conseguiu o "concurso que elegeu o hino da Capital de Santa Catarina, quele que escreveu em letras musicais a literatura e a arquitetura da nossa "Ilha da moça faceira, da velha rendeira tradicional... Um pedacinho de terra perdido no mar, um pedacinho de terra beleza sem par..." Ele sempre será lembrado pela sua competência imaginativa a escorrer pelas suas mãos que registraram todas as suas criações em folhas de papel e nas cordas de um violão... 
E para acompanhar a nossa Amiga Olga Postal, sempre ao seu lado temos o nosso sempre amigo Manoel Ferreira - Violeiro da ABCH. São as nossas duas personas lindas! Eles dois me fazem viajar na Barca da Senhora História.
 Cristina M. Lopes, narrando o conto de Nossa Senhora e o Linguado.
O público atento, ouve a Vice-Presidente da ABCH. 
A narradora estava a contar, cantar e a encantar.
Estão curiosos? Pois vou revelar!

Conto: Nossa Senhora, o Linguado e o Siri!

“Conta a estória que certa ocasião Nossa Senhora precisou atravessar o mar, mas não tinha certeza se a maré iria encher ou vazar.

Estava parada na praia; praia esta que deveria ser no continente, mas ela queria passar para a mais bela ilha da terra, a Ilha de Santa Catarina, quando surgiu um bonito linguado nadando ali perto dela.

Com toda sua beleza e ternura celestial, dirigiu-se ao peixe linguado, indagando-lhe se sabia ou não se a maré ia encher ou vazar.
O linguado respondeu a pergunta da Senhora, remedando-a. Ficou com a boca torta.
Um siri que havia escutado a indagação da Senhora e a deseducada resposta do linguado, dirigiu-se a ela com toda educação sirinesca, e lhe ofereceu uma carona até a praia onde ela queria alcançar.

Afirma a estória que o resultado deste acontecimento lendário é o seguinte: o linguado ficou com a boca deformada. No casco do siri se observa, em baixo relevo, a figura de uma senhora segurando os lados da saia, para não molhá-la. Deve ser o retrato de Nossa Senhora, num ato celestial sublime de sincero agradecimento, pela atitude hospitaleira do frágil crustáceo.” Franklin Cascaes.

Depois da narradora Cristina, foi a vez de Dora Duarte com a Mediação de Leitura animada, do livro "Pula que Pula", de Shirley Souza, mediado pela Acadêmica da ABCH Dora Duarte. Até o Igor se apresentou.

Por ultimo veio o "Velho João, o filho da bruxa" (Narrado pela Presidente de Honra da ABCH - Claudete Da Mata, sua autora).
Era uma sexta-feira de Lua-Cheia, lá pras bandas do Ribeirão da Ilha de Santa Catarina...

Esse dia foi apresentado em homenagem ao DIA DA CRIANÇA.

(Texto elaborado por Claudete T. da Mata - Favor solicitar autorização de uso de qualquer material deste Blog, que possui DIREITOS AUTORAIS)